“Força na unidade”: a presidência irlandesa do Conselho da UE e sua agenda geopolítica
Presidência irlandesa da UE busca 'Força na unidade' para competitividade, apoio à Ucrânia e paz no Médio Oriente até dezembro de 2026.
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“Força na unidade”: a presidência irlandesa do Conselho da UE e sua agenda geopolítica
Por Marco Severini — Espresso Italia
Em Dublin, no dia 1º de julho, o primeiro-ministro irlandês Micheál Martin apresentou os objetivos da presidência irlandesa do Conselho da União Europeia, que se estenderá até 31 de dezembro de 2026. O tom foi claro e estratégico: melhorar a competitividade e a produtividade europeias, sustentar a Ucrânia em face da agressão russa, apoiar esforços por uma paz no Médio Oriente e acelerar o processo de aproximação dos países candidatos à adesão.
Ao lado de Martin estava o presidente do Conselho Europeu, António Costa, sinalizando que os próximos seis meses serão um movimento coordenado entre instituições, com uma agenda que o próprio Costa qualificou como “exigente”. O mote escolhido para a presidência — “Força na unidade” — serve tanto como lema quanto como advertência: em um tabuleiro internacional de tensões crescentes, a UE precisa consolidar seus alicerces internos para projetar poder e estabilidade externamente.
Costa definiu três pilares fundamentais: valores, competitividade e segurança. No capítulo econômico, a presidência irlandesa pretende avançar a agenda “Uma Europa, um mercado”, reforçando políticas que aumentem produtividade, inovação e coesão do mercado único. Trata-se de uma leitura clássica da economia geopolítica: sem um mercado interno robusto, a UE perde margem de manobra estratégica face a potências concorrentes.
No campo da segurança, Costa sublinhou o contexto geopolítico global complexo em que a Europa se encontra. Navegando “essas águas difíceis”, conclamou o bloco a tomar como bússola o direito internacional, o multilateralismo e o ordem internacional baseada em regras. Esses princípios, afirmou, devem orientar o apoio europeu a Kiev e as respostas a crises regionais.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky participou da cerimônia e pediu progressos concretos sobre um acordo relativo a drones, que Kiev propôs à UE, e ressaltou a importância de difundir tecnologias de defesa ucranianas por meio de acordos bilaterais e parcerias. Zelensky também solicitou medidas que tornem mais onerosa para Moscou a condução da guerra, mencionando tanto ataques de maior alcance contra infraestruturas militares e energéticas russas quanto um endurecimento de sanções, ao mesmo tempo em que reclamou avanços tangíveis nas negociações de adesão da Ucrânia à União.
Ao abordar o tabuleiro do Médio Oriente, Costa reafirmou que os mesmos valores que orientam a ação europeia devem guiar posições em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, no Irã e no Estreito de Hormuz. A União defende que a via para uma paz duradoura na região passa por uma solução política estável — em essência, a busca por uma solução de dois Estados sustentada pelo direito internacional. Em outras palavras, sem a reconstrução de alicerces diplomáticos e humanitários, qualquer estabilidade será frágil e temporária.
O arranque da presidência irlandesa é, portanto, um movimento deliberado no tabuleiro europeu: reforçar o mercado interno, consolidar solidariedades estratégicas, e traduzir valores em políticas externas concretas. Nos próximos seis meses, veremos se a retórica transforma-se em iniciativas que alterem a tectônica de poder no seio da UE e sua capacidade de projetar influência num mundo em mutação.