Funeral de Mladić agrava bloqueio à adesão da Sérvia à União Europeia, dizem von der Leyen e Costa
Funeral de Ratko Mladić em Belgrado agrava a crise entre Sérvia e UE, com condenação de von der Leyen e Costa e risco à candidatura sérvia.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Funeral de Mladić agrava bloqueio à adesão da Sérvia à União Europeia, dizem von der Leyen e Costa
Por Marco Severini — Às vezes, no tabuleiro das relações internacionais, um único movimento desnuda alicerces frágeis. A presença de altos funcionários sérvios no funeral de Ratko Mladić provocou uma resposta institucional rara e severa das principais lideranças da União Europeia, que ontem emitiram uma declaração conjunta condenando o episódio.
Em uma publicação simultânea na plataforma X, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, classificaram as imagens do enterro em Belgrado como "chocantes". Recordaram que Ratko Mladić — conhecido como o "Açougueiro da Bósnia" — morreu no final de agosto, aos 84 anos, em um centro de detenção da ONU na Haia, enquanto cumpria pena de prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo os massacres de Srebrenica.
O traslado do corpo para Belgrado, realizado em aeronave do Estado, a cerimônia com honras militares, a recepção por um pelotão de honra e a cobertura pela emissora pública e pela Igreja Ortodoxa Sérvia — com a urna envolta em bandeira nacional — alimentaram reações indignadas entre diplomatas e ministros europeus. O post conjunto de von der Leyen e Costa sublinha que a glorificação oficial de um condenado por genocídio contraria os valores fundamentais exigidos para quem ambiciona integrar a União Europeia.
Nos dias anteriores, a comissária para o Alargamento, Marta Kosha, já havia advertido que o funeral seria um "teste importante" para a candidatura da Serbia. A escalada, contudo, transformou um aviso em reprovação institucional formal. A porta-voz principal da Comissão, Paula Pinho, também entrou na controvérsia ao afirmar, em entrevista coletiva, que não havia sido confirmado um funeral com honras de Estado — declaração que Brasília e Sarajevo consideraram insuficiente e que suscitou fortes críticas do Ministério das Relações Exteriores da Bósnia e Herzegovina.
Ao mesmo tempo, a declaração conjunta revela uma tectônica de poder em mutação: o comportamento de Belgrado é lido não apenas como uma questão de memória histórica, mas como um indicador da disposição da Serbia de confrontar capítulos sombrios do passado e alinhar-se às normas europeias. Em julho, a Comissão tentou avançar a candidatura sérvia abrindo o chamado "Cluster 3", mas encontrou bloqueios de oito Estados-membros, que invocaram preocupações sobre Estado de direito e o não alinhamento de Belgrado às sanções contra a Rússia.
Em linguagem diplomática, a mudança é nítida: de um aviso técnico à imposição de uma censura política e simbólica. Para aqueles que observam o processo de adesão como um jogo de xadrez, este funeral foi um movimento que expõe peças vulneráveis no centro do tabuleiro — e que pode redefinir alianças e prioridades nos corredores da União.
O episódio coloca a Serbia diante de uma encruzilhada. Manter gestos de apologia a um condenado por genocídio e institucionalizar honras que ecoam da história recente não apenas reaviva traumas regionais — sobretudo em Srebrenica — como também fragiliza as bases políticas necessárias para prosseguir negociações de integração. Em termos práticos, a resposta de Bruxelas sinaliza que o caminho de Belgrado para a adesão permanece condicionado a um confronto honesto com o passado e uma demonstração inequívoca de compromisso com os valores euro-atlânticos.
Esta é uma partida que não se decide em um dia. Mas em matéria de diplomacia e memória, algumas jogadas são, por sua natureza, irreversíveis. O funeral de Ratko Mladić não é apenas um ato privado: tornou-se um catalisador de decisões estratégicas que poderão recalibrar o futuro da relação entre a Serbia e a União Europeia.

