Hungria expulsa dez diplomatas russos em movimentação estratégica contra redes de inteligência
Hungria expulsa dez diplomatas russos por atividades 'inaceitáveis', num movimento estratégico que sinaliza mudança na postura de Budapeste.
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Hungria expulsa dez diplomatas russos em movimentação estratégica contra redes de inteligência
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que sutilmente, as linhas de influência no centro da Europa, o governo da Hungria ordenou a saída do país de dez funcionários da missão diplomática russa, alegando atividades consideradas “inaceitáveis para o seu papel” segundo a Convenção de Viena.
A ministra dos Negócios Estrangeiros, Anita Orbán, comunicou ao embaixador russo em Budapeste que, na avaliação das autoridades húngaras, esses dez membros da missão desempenharam ações incompatíveis com o status diplomático. O Executivo de Budapeste não detalhou publicamente a natureza exata das condutas, limitando-se a pedir que as pessoas envolvidas deixem o país.
De forma calculada e deliberada, o governo ressaltou que a medida não representa uma ruptura das relações diplomáticas com Moscou. "Não significa a ruptura das relações diplomáticas com a Rússia. A Hungria pretende continuar o diálogo necessário, baseado no respeito mútuo e na observância das normas", declarou a ministra.
Fontes de imprensa e serviços de inteligência associaram a decisão a um padrão mais amplo: Budapeste, segundo eles, teria se transformado em um centro para atividades dos serviços secretos russos. Investigações jornalísticas recentes indicam que uma parcela significativa dos funcionários da embaixada russa em Budapeste teria vínculos com agências de inteligência de Moscou — um dado que, na linguagem do jogo diplomático, corresponde a um deslocamento de peças num tabuleiro sensível.
A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Moscou, Maria Zakharova, reagiu com veemência, advertindo que a resposta russa será "dura e dolorosa" e atribuindo o episódio àquilo que chamou de "lobby russofóbico em Budapeste".
Analistas recordam que essa expansão de rede russa na Hungria foi construída ao longo de cerca de dezesseis anos de hegemonia política exercida pelo ex-primeiro-ministro Viktor Orbán, figura conhecida por manter canais estreitos com o presidente Vladimir Putin. Em 2022, reportagens do jornal investigativo Direkt36 apontaram que sistemas do ministério dos Negócios Estrangeiros húngaro foram violados pelo FSB e pelo GRU, com acesso prolongado a dados sensíveis — fatos inicialmente negados pelas autoridades e subsequentemente reconhecidos.
A imprensa russa de investigação também afirmou que, entre 47 funcionários da embaixada russa em Budapeste, ao menos 15 teriam ligações com serviços de inteligência, com outros seis sob suspeita.
O novo governo do primeiro-ministro Péter Magyar, surgido após uma vitória eleitoral expressiva em abril, prometeu romper a estreita cooperação com o Kremlin. Para o ex-diplomata e estudioso de relações exteriores István Szentiványi, as expulsões estão diretamente ligadas a atividades de espionagem e marcam uma mudança de linha clara na política externa de Budapeste: "É um sinal inequívoco de que a Hungria não pretende ser mais um centro para a coleta de informações estrangeiras".
Na leitura geopolítica, trata-se de um movimento com dupla função: domesticar os alicerces frágeis da diplomacia interna e reposicionar a Hungria no mapa das alianças europeias — uma jogada que busca restaurar margem de manobra e credibilidade perante parceiros ocidentais, ao mesmo tempo em que evita, por ora, o confronto aberto com Moscou. O desfecho dessa tensão dependerá das próximas respostas bilaterais e das peças que cada capital decidirá mover no tabuleiro da segurança internacional.

