Giancarlo Devasini: o italiano nas sombras que viu sua fortuna disparar com o avanço do Bitcoin
Giancarlo Devasini, presidente da Tether, tornou-se o mais rico da Itália graças à USDT e à arquitetura financeira por trás das criptomoedas.
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Giancarlo Devasini: o italiano nas sombras que viu sua fortuna disparar com o avanço do Bitcoin
Bitcoin voltou a ganhar os holofotes e flertou com a marca de US$ 80 mil após uma semana de rali que levou a criptomoeda acima de US$ 79 mil — um avanço superior a 20% em poucos dias. Por trás desse movimento, atuaram novos fluxos para ETFs spot, expectativas de maior liquidez nos Estados Unidos e um ambiente regulatório em Washington mais favorável às moedas digitais. No entanto, há um traço tipicamente italiano nesta história: o homem mais rico da Itália construiu sua fortuna no âmago da economia cripto, mantendo-se, curiosamente, na sombra.
Trata-se de Giancarlo Devasini, 62 anos, presidente da Tether, emissora da maior stablecoin do mundo, a USDT. Segundo a Forbes, seu patrimônio está estimado em US$ 89,3 bilhões, valor que o coloca no topo da lista dos bilionários italianos e numa posição de destaque global. Para fins de comparação, supera em larga escala os US$ 48,8 bilhões de Giovanni Ferrero e os US$ 42,6 bilhões de Andrea Pignataro — um deslocamento na cena econômica italiana não visto desde 2007, quando um Ferrero ocupava o posto máximo.
Convém, porém, distinguir narrativa de mecanismo. Dizer que Devasini enriqueceu "com o Bitcoin" é uma simplificação sedutora, porém imprecisa. Sua riqueza em grande medida decorre da arquitetura financeira que ele ajudou a edificar ao redor das criptomoedas, sobretudo por meio da Tether e da sua USDT, e não apenas por posições pessoais em ativos como o Bitcoin.
A USDT foi concebida para manter-se próxima de um dólar, funcionando como uma moeda de passagem no ecossistema cripto: facilita a mobilidade de liquidez entre exchanges e ativos digitais sem que os agentes precisem retornar ao sistema bancário tradicional. Esse papel transformou a Tether num pilar operacional do mercado.
Os números ajudam a mapear a dimensão do fenômeno: no final de 2025 havia mais de US$ 186 bilhões em USDT em circulação; a Tether declarou lucros superiores a US$ 10 bilhões apenas em 2025. Grande parte das reservas da empresa está alocada em títulos do Tesouro dos EUA: a exposição direta aos Treasuries ultrapassava os US$ 122 bilhões ao término do ano, enquanto a exposição total, contabilizando instrumentos indiretos, superava os US$ 141 bilhões. A Forbes estima que Devasini detenha aproximadamente 45% da Tether. É essa participação, recalculada à luz do tamanho e da rentabilidade da companhia, que explica a explosão patrimonial em papel.
O percurso de Devasini soma elementos de uma biografia digna de mapear movimentos tectônicos de carreira: nascido em Casale Monferrato, formou-se em medicina e teve passagem pela cirurgia plástica; em seguida migrou para a informática, o comércio eletrônico e, por fim, para o universo das moedas digitais. Relatos da imprensa italiana o descrevem como um ex-cirurgião plástico que se transformou em protagonista silencioso da revolução cripto — presença discreta, mas de influência estruturante.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, o caso Devasini-Tether revela um redesenho de fronteiras invisíveis entre finanças tradicionais e ecossistemas digitais. A massiva interdependência entre USDT e os mercados de dívida soberana dos Estados Unidos desenha uma arquitetura de risco e liquidez que autoridades, reguladores e operadores internacionais observam com atenção. Em termos de tabuleiro, é um movimento decisivo: a peça que atua fora da vista pública passa a definir fluxos e possibilidades no centro do tabuleiro financeiro.
Por fim, a ascensão de um nome como Giancarlo Devasini ao topo da riqueza italiana traz à tona perguntas de ordem institucional e de estabilidade. Como equilibrar inovação e supervisão quando a infraestrutura que sustenta mercados digitais assenta suas reservas em instrumentos de um Estado ? Quais são os alicerces — e as fragilidades — dessa nova tectônica de poder econômico? São questões que permanecerão no centro do debate à medida que Bitcoin e as stablecoins consolidam seu papel no ecossistema financeiro global.
Em suma, a narrativa é menos uma história de sorte sobre um ativo que sobe e mais o relato de um redesenho estrutural: uma estratégia silenciosa que, como em uma partida de xadrez bem jogada, movimenta peças por detrás do tabuleiro e redefine posições de influência.

