Como a IA pode prolongar a vida dos combustíveis fósseis e agravar a crise climática

Estudo em Nature alerta que a IA pode prolongar o uso de combustíveis fósseis e aumentar emissões, ampliando a crise climática global.

Como a IA pode prolongar a vida dos combustíveis fósseis e agravar a crise climática

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Como a IA pode prolongar a vida dos combustíveis fósseis e agravar a crise climática

Por Marco Severini — Um recente estudo publicado na revista Nature e assinado por um grupo de ex-funcionários da Microsoft desenha um cenário de tectônica de poder energético: a disseminação da Inteligência Artificial no setor de energia corre o risco de conceder uma "nova vida" às fontes fósseis, sobretudo petróleo e gás, com impacto direto nas emissões globais.

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Os autores alertam que a crescente demanda energética impulsionada pela própria IA exigirá um notável aumento da oferta. Ironia do tabuleiro: as mesmas tecnologias que prometem eficiência poderão postergar o chamado "pico petrolífero" ao tornar mais rentável e viável extrair hidrocarbonetos já conhecidos. Na estimativa dos pesquisadores, a otimização por meio de IA poderia viabilizar a recuperação adicional de entre 470 e 1.000 bilhões de barris de petróleo em depósitos já identificados, ao mesmo tempo em que reduz custos de extração.

Esse movimento, no entanto, tem um preço climático substancial. Mesmo reconhecendo que a IA também melhorará a gestão de fontes renováveis intermitentes — como a solar e a eólica —, o estudo conclui que esses ganhos serão insuficientes para compensar a expansão das fontes fósseis, as protagonistas do aquecimento da atmosfera.

Há aqui uma lógica de poder e capital: a indústria do petróleo e do gás está melhor posicionada para aproveitar inovações digitais — por ser mais madura e dispor de maiores recursos — e já registra implementações práticas, como em grandes grupos globais do setor. Em outras palavras, o benefício da Inteligência Artificial tende a favorecer quem tem maior capacidade de investimento, ampliando desigualdades também na geografia energética.

O estudo projeta que as emissões líquidas de dióxido de carbono (CO2) do setor energético podem crescer globalmente entre 0,47 e 1,8 bilhões de toneladas — um acréscimo comparável às emissões de um grande país. Outro vetor crítico da pressão sobre a demanda energética são os centros de dados: em 2025 o setor já consumiu cerca de 448 TWh. Jean‑Marc Jancovici, engenheiro e cofundador do think tank The Shift Project, advertiu que os maiores projetos de IA nos Estados Unidos preveem absorver ordens de magnitude da energia — “10 GWh” em alguns casos —, o que, segundo ele, equivaleria à energia produzida por sete reatores nucleares EPR para fazer funcionar um único data center.

Somado a isso, o relatório intitulado Environmental cost of AI’s energy use: carbon, water and land footprints estima que o investimento global em IA poderá disparar para cerca de US$ 15 trilhões em 2033, alimentando um ciclo de expansão de infraestrutura e consumo energético. Diante desse quadro, o avanço tecnológico, em vez de atuar como instrumento automático de descarbonização, pode redesenhar fronteiras invisíveis: reforçar velhas dependências e prolongar a era dos combustíveis fósseis.

Como analista das relações internacionais e da estabilidade estratégica, registre-se aqui a ironia do movimento: a Inteligência Artificial opera como uma peça poderosa no tabuleiro, capaz de alterar dinâmicas de poder econômico e energético. Se não houver políticas públicas robustas, mecanismos regulatórios e incentivos orientados para a transição energética, corre-se o risco de enterrar sob novos algoritmos os alicerces frágeis da diplomacia climática.

Em suma: sem arquitetura regulatória e visão de longo prazo, a expansão da IA pode transformar-se em um movimento decisivo que favorece a extensão da vida útil dos combustíveis fósseis, ampliando emissões e aprofundando a crise climática — um risco que exige resposta coordenada entre governos, indústria e sociedade civil.

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