Itália entre os cinco Estados da UE que corroem o Estado de Direito, aponta relatório Liberties 2026

Relatório Liberties 2026 aponta Itália entre 5 países da UE que corroem o Estado de direito; riscos e possíveis medidas da UE explicados.

Itália entre os cinco Estados da UE que corroem o Estado de Direito, aponta relatório Liberties 2026

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Itália entre os cinco Estados da UE que corroem o Estado de Direito, aponta relatório Liberties 2026

Bruxelas — Um quadro já conhecido, mas cada vez mais alarmante, volta a emergir no tabuleiro institucional da União Europeia: cinco governos comunitários estão a minar, de forma sistemática e intencional, os alicerces do Estado de direito. Este é o diagnóstico central do Relatório Liberties Rule of Law 2026, elaborado por uma rede independente de quase 40 organizações de direitos humanos provenientes de 22 Estados-membros.

No documento, os países classificados como “smantellatori” dos padrões democráticos são: Itália, Hungria, Eslováquia, Croácia e Bulgária. A análise foca-se em quatro áreas essenciais: sistema judiciário, combate à corrupção, liberdade dos meios de comunicação e equilíbrio entre os poderes — as peças fundamentais de qualquer ordem constitucional que se pretenda sólida.

Tratando este fenômeno como movimento estratégico num grande tabuleiro de xadrez continental, o relatório não se limita a uma lista negra. Regista também sinais de regressão em democracias até aqui consideradas robustas — Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Malta e Suécia — e classifica dez Estados-membros onde não houve progressos significativos: República Checa, Estónia, Grécia, Irlanda, Lituânia, Países Baixos, Polónia, Roménia, Eslovénia e Espanha.

Hungria permanece numa categoria à parte: sob o comando de Viktor Orbán, prossegue uma agenda legislativa e política de retrocesso persistente. Na Eslováquia, o governo de Robert Fico é descrito no relatório como populista, autoritário e pró-moscovo, responsável por uma erosão acelerada das salvaguardas democráticas.

Quanto à Itália, o documento constata que a governação de Giorgia Meloni “proseguiu o percurso avviato nel 2022”. Ao longo de 2025, Roma implementou medidas que, por um lado, reforçaram estruturas institucionais ao reduzir responsabilidades de funcionários públicos e ampliar garantias, sobretudo para as forças de segurança; por outro, intensificaram-se práticas que comprimem o espaço cívico: ameaças a opiniões dissidentes, repressão violenta de manifestações, políticas discriminatórias contra minorias étnicas e migrantes, criminalização de ativistas e crescente pressão política sobre a magistratura.

O relatório cita episódios concretos que marcaram a trajetória italiana: o caso Almasri, o escândalo dos spyware utilizados contra ativistas e jornalistas, o confronto com magistrados sobre centros para pessoas migrantes na Albânia e o ápice simbólico representado pelo decreto Sicurezza, convertido em lei em junho de 2025.

Do ponto de vista jurídico-institucional, os autores adiantam que, se a Comissão Europeia acolhesse integralmente as preocupações aqui expostas na sua avaliação anual sobre o Estado de direito, esses elementos seriam potencialmente suficientes para desencadear a procedura ai sensi dell'articolo 7, o mecanismo sancionatório já acionado contra a Hungria em 2018. Igualmente, os instrumentos de condicionalidade orçamental da UE poderiam ser ativados em relação a Roma.

Como analista, observo que estamos perante um reposicionamento das forças no interior da União: movimentos que pareciam periféricos assumem agora uma natureza estrutural, redesenhando fronteiras de autoridade e confiança entre instituições. Não se trata apenas de episódios isolados, mas de uma lenta tectônica de poder que exige respostas calibradas, tanto jurídicas quanto estratégicas, para preservar o cimento democrático que mantém unida a união política europeia.

Em suma, a mensagem do relatório é clara: a estabilidade do sistema jurídico-político europeu depende da prontidão das instituições comunitárias em reconhecer padrões de regressão e agir com passos decisivos — como no jogo que exige visão de longo prazo, cada movimento agora pode determinar a posição das peças no futuro próximo.