Itália exige flexibilidade no Pacto para enfrentar a crise energética, diz Zaia: “A UE deve ouvir o governo”
Regiões italianas pedem flexibilidade no Pacto de Estabilidade para enfrentar a crise energética; Zaia e líderes regionais exigem resposta da UE.
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Itália exige flexibilidade no Pacto para enfrentar a crise energética, diz Zaia: “A UE deve ouvir o governo”
Bruxelas – Em um movimento que revela o atrito crescente entre governos nacionais e as instituições europeias sobre a resposta à escalada das tarifas, o ex-presidente do Vêneto e agora vice-presidente da Comissão de Recursos Naturais do Comitê das Regiões, Luca Zaia, pediu publicamente maior margem de manobra ao bloco para que o Executivo italiano possa intervir contra a crise energética.
Eleito hoje, primeiro vice-presidente (entre dois) da comissão, Zaia declarou, à margem dos trabalhos, que “é fundamental ouvir a solicitação do governo Meloni: foi claro quanto à possibilidade de investir e ampliar a despesa”. Em sua leitura, a proposta italiana de contemplar uma suspensão temporária do Pacto de Estabilidade para mitigar o impacto do aumento das contas de energia merece atenção e uma resposta pragmática de Bruxelas.
A posição italiana contrapõe-se, em parte, ao apelo do vice-presidente da Comissão Europeia com pasta de Coesão e Reformas, Raffaele Fitto, que sugeriu empregar os já comprometidos fundos de coesão para enfrentar o aumento dos preços. Zaia foi enfático: “Os fundos de coesão já têm uma destinação. Valeria mais que a União Europeia nos permitisse abrir os cordões da bolsa e realizar as intervenções que o governo pretende promover”.
Mais contundente, o assessor regional para Agricultura da Emilia-Romagna, Alessio Mammi, classificou a ideia de redirecionar os fundos de coesão como “inaceitável”. Segundo Mammi, utilizar esses recursos para políticas energéticas seria um erro estratégico, pois tais fundos são vitais para investimentos em áreas rurais e remotas — infraestrutura, estradas, requalificação urbana, serviços sociais e de saúde em zonas de montanha — cuja fragilidade territorial depende diretamente desses aportes.
Na sessão, foi aprovado por unanimidade o parecer assinado por Mammi que exige evitar a redução de 20% dos fundos da PAC e das verbas para a agricultura no próximo Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034 da UE. O documento também pede a manutenção da OCM (Organização Comum de Mercado), ferramenta que o relator qualificou como “formidável” para permitir investimentos em pesquisa, produção e agregação da oferta, essenciais para preservar a renda dos agricultores.
Para Mammi, as respostas a médio e longo prazo passam por três frentes: elevar a despesa pública da UE do atual 1% para 1,6% do Rendimento Nacional Bruto da União; aumentar a produção europeia de proteínas, atualmente deficitária; e incentivar a produção de fertilizantes no continente, reduzindo a dependência externa que torna as cadeias sensíveis a rupturas (lembrando o risco de um bloqueio no Estreito de Hormuz).
O presidente da Região do Piemonte, Alberto Cirio, sintetizou o dilema em termos políticos: “É difícil explicar aos cidadãos por que a Europa permite ultrapassar o Pacto para comprar drones ou mísseis, mas não para ajudar um padeiro a pagar uma conta de luz triplicada ou quadruplicada em razão de guerras internacionais”.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da política europeia: as regiões italianas pressionam por uma rearrumação das regras fiscais e orçamentárias como forma de criar alicerces mais resilientes à atual tectônica de poder energético. Resta saber se a cartografia institucional de Bruxelas aceitará esse redesenho tático ou se preferirá manter a disciplina fiscal vigente, reforçando tensões entre soberania nacional e governança supranacional.