NATO 3.0: o fim da escolta americana na defesa da Europa? Análise de Marco Severini

Análise de Marco Severini sobre o impacto do plano NATO 3.0 e o realinhamento dos EUA na defesa da Europa.

NATO 3.0: o fim da escolta americana na defesa da Europa? Análise de Marco Severini

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NATO 3.0: o fim da escolta americana na defesa da Europa? Análise de Marco Severini

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, gradualmente, o mapa estratégico do Atlântico Norte, a proposta conhecida como NATO 3.0 surge como uma resposta prática dos aliados ao gradual desengajamento declarado pelos Estados Unidos em relação à segurança europeia. O quadro desenhado nos últimos dezoito meses aponta para uma aceleração desse reposicionamento, iniciada já antes do retorno de Trump à Casa Branca.

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Administrativamente, a segunda presidência de Trump tem sinalizado, com frequentes anúncios de retirada de tropas e cortes em capacidades militares essenciais, uma reorientação de recursos para além do teatro europeu. O próprio presidente chegou a descrever a aliança como uma “tigre de papel” e aventou, por diversas vezes, a hipótese de um afastamento total dos compromissos dos EUA com a organização.

Como contrapartida, Canadá e Estados europeus propuseram um incremento substancial nos gastos de defesa, selando um acordo para direcionar até 5% do PIB à defesa até 2035 — um esforço que tem sido rotulado publicamente como NATO 3.0. Na prática, porém, trata-se de operacionalizar a estratégia concebida em Washington para reduzir o papel militar americano no continente e exigir que aliados assumam uma parcela maior do peso regional.

O arquiteto intelectual desse reposicionamento é, em grande parte, o subsecretário para assuntos de Guerra, Elbridge Colby, que advoga por uma revisão substancial da postura militar dos EUA na Europa. Colby admite que os EUA devem conservar presença no continente e lembra do apoio bipartidário à adesão à aliança no Congresso; entretanto, na sua leitura, os interesses na defesa da pátria e no hemisfério americano exigem novas prioridades.

Críticos veem no NATO 3.0 um empurrão para fora: uma redução, de fato, do compromisso americano com a segurança europeia — uma mudança que contraria o postulado fundante segundo o qual a segurança europeia e a dos EUA são interdependentes. O problema prático já se materializa: capacidades e forças-chaves consideradas dissuasoras foram retiradas, justamente quando a agressão russa contra a Ucrânia permanece em curso e ataques híbridos e incursões de drones pressionam a resiliência dos aliados.

“Os tempos mudaram”, disse Colby aos ministros da Defesa da aliança em Bruxelas, argumentando que as prioridades de defesa da pátria foram reinterpretadas. No tabuleiro diplomático, essa declaração funciona como um movimento decisivo: redesenha linhas de responsabilidade e deixa espaços que os aliados europeus são convidados — ou compelidos — a preencher.

O desgaste das relações entre Washington e aliados europeus não é apenas técnico; é também político e simbólico. Comentários de Trump sobre a possibilidade de 'adquirir' a Groenlândia, território ligado à Dinamarca e integrante do eixo transatlântico, corroeram profundamente a confiança. Já a recente campanha militar estadunidense no Irã e a evidente relutância de algumas capitais europeias em se envolver mostram como as afinidades tradicionais vêm sendo testadas.

Do ponto de vista estratégico, estamos diante de uma tectônica de poder: a Europa, pressionada a reforçar seus alicerces militares, precisa decidir se constrói uma arquitetura de defesa mais robusta e autônoma ou se tenta renegociar, com Washington, o caráter da solidariedade coletiva. Em qualquer hipótese, NATO 3.0 aparece menos como uma modernização harmoniosa e mais como a forma de “indourar a pílula” de um reequilíbrio comandado por políticas externas americanas.

Há, portanto, duas perguntas centrais que permanecem abertas: até que ponto os aliados europeus estão dispostos e capazes de arcar com a nova carga estrutural que lhes é proposta; e como Washington fará para preservar, sem os mesmos meios, a dissuasão que antes era sustentada por sua presença material. No cenário global, as peças foram movidas — resta aos atores europeus recalcular suas jogadas no tabuleiro.

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