Ridateci Yamani: a ausência de um árbitro do petróleo diante da crise no Estreito de Hormuz

A ausência de Ahmed Zaki Yamani revela o vácuo de liderança na crise do Estreito de Hormuz e o risco à segurança energética global.

Ridateci Yamani: a ausência de um árbitro do petróleo diante da crise no Estreito de Hormuz

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Ridateci Yamani: a ausência de um árbitro do petróleo diante da crise no Estreito de Hormuz

Por Marco Severini — Há momentos em que o silêncio de um protagonista pesa mais que o ruído de multidões. Desde 4 de março de 2026, o Estreito de Hormuz permanece fechado. Cerca de cento e cinquenta petroleiros aguardam ao largo no Golfo Pérsico, o preço do Brent atingiu 126 dólares por barril, e a Agência Internacional de Energia descreve a situação como a maior ameaça à segurança energética global da história recente. Em meio a essa tempestade, o mercado, as diplomacias e as salas de decisão sentem uma lacuna: não existe hoje uma voz única, moral e técnica, capaz de alinhar mercados e chancelerias com o mesmo peso.

Se Ahmed Zaki Yamani vivesse — morreu em Londres em 23 de fevereiro de 2021 e está sepultado na Meca, sua cidade natal —, ele teria, provavelmente, observado os desdobramentos com a mesma serenidade calculada de sempre. Imagino-o no décimo oitavo andar do InterContinental de Genebra, instalado num dos grandes divãs que circundam a suíte, brincando com a sua misbaha, o rosário muçulmano, e sorvendo suco de romã. Ao ser provocado por um repórter, teria dito, em italiano ou inglês com sotaque suave: “Doveva andare giù. Doveva andare giù”. Palavras curtas, mas capazes de mover bilhões: essa era a sua arte.

Yamani foi Ministro do Petróleo da Arábia Saudita de 9 de março de 1962 a 5 de outubro de 1986 — vinte e quatro anos e sete meses, o mandato mais longo na história da OPEP. Embora raramente tenha ostentado o título formal de chefe da organização, foi-o em tudo exceto no nome. Foi sete vezes presidente da Conferência Ministerial, secretário-geral no biênio de 1968-69 e tornou-se o interlocutor insubstituível de políticos, diplomatas e mercados. A sua autoridade residia não apenas no cargo, mas na compreensão profunda do tabuleiro energético e na credibilidade construída ao longo de décadas.

Genebra foi, durante anos, seu palco natural. A OPEP teve ali a sua sede inicial entre 1960 e 1965, e mesmo depois do traslado para Viena, a capital suíça continuou a dominar certas negociações discretas. Recordemos também o trauma coletivo de 21 de dezembro de 1975, quando Carlos, conhecido como "o Chacal", atacou a sede da OPEP em Viena, fazendo onze ministros reféns e assassinando três pessoas — um lembrete terrível de que as decisões sobre energia não são apenas econômicas, mas também geopolíticas e vulneráveis a choques dramáticos.

A ausência hoje é estrutural. O mundo do petróleo — traders, analistas, ministros, jornalistas — não dispõe de um interlocutor que articule, com igual autoridade moral e técnica, a linguagem dos mercados e a diplomacia. Cada governo tem pressões domésticas e estratégias de curto prazo; cada empresa procura proteger posições; as organizações multilaterais alertam e quantificam riscos, mas carecem de um emissário com a combinação de experiência política, acesso e reputação que Yamani possuía.

Essa lacuna transforma o estreito fechado em mais que um bloqueio físico: é o sintoma de um alicerce frágil na governança global de energia. Sem um árbitro reconhecido, o jogo se fragmenta em movimentos unilaterais e reativos — uma tectônica de poder onde cada peça age isoladamente, aumentando a volatilidade e os riscos sistêmicos. O que precisamos, agora, não é apenas de retórica, mas de um artesão das negociações que saiba redesenhar fronteiras invisíveis entre interesses rivais, alinhando incentivos e dissuações.

Reclamar por Yamani não é um gesto anacrônico. É, antes, admitir que a arquitetura clássica da diplomacia energética foi desmantelada por anos de polarização, competição tecnológica e interesses nacionais intransigentes. Voltar a ter figuras capazes de mediar com autoridade exige investimento em instituições, diálogo contínuo entre produtores e consumidores e um entendimento estratégico de longo prazo. Sem isso, o mercado continuará a responder como num tabuleiro sem árbitro — com movimentos bruscos, perdas evitáveis e a erosão gradual da estabilidade.

O fechamento do Estreito de Hormuz e o salto do Brent são, portanto, um alerta: as peças se movimentam, e a ausência do homem certo no centro do tabuleiro torna cada lance mais perigoso. É hora de pensar a diplomacia energética não como cerimônia, mas como arquitetura de segurança. E, se me permitem um arroubo de nostalgia estratégica, sim: ridateci Yamani — não para clonar um passado, mas para recuperar a ambição de um interlocutor que, com palavra medida e autoridade construída, saiba transformar crise em negociação e instabilidade em ordem.