Donald Trump: um líder perigoso que isola os EUA e reestrutura o tabuleiro geopolítico
Análise de Marco Severini: como as decisões de Donald Trump ampliam riscos geopolíticos, disparam preços do petróleo e impactam a economia americana.
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Donald Trump: um líder perigoso que isola os EUA e reestrutura o tabuleiro geopolítico
Por Marco Severini — Em um momento em que a tectônica de poder global exige cálculos precisos e orientação institucional, o mundo assiste a um movimento que pode ser descrito, sem eufemismos, como uma guinada rumo ao risco. Na cadeira mais influente do planeta está Donald Trump, cuja atuação revela uma combinação de improviso e interesse pessoal que ameaça não apenas os alicerces da diplomacia tradicional, mas a estabilidade econômica global.
Não se trata apenas de críticas retóricas: estamos diante de um líder cuja prioridade parece ser o benefício imediato de sua órbita íntima. A aproximação com atos militares precipitados — em particular o apoio incondicional a um ataque contra o Irã ao lado de Israel — demonstra uma incapacidade de avaliar consequências estratégicas além do curto prazo. Trump mesmo havia proclamado, em junho de 2025, que o Irã estava “militarmente aniquilado”; a realidade mostra-se muito mais complexa e menos permissiva.
Os custos materiais e políticos já são palpáveis. Segundo cálculos amplamente públicos, nos primeiros seis dias após as operações os EUA despenderam mais de 11 bilhões de dólares, sem, aparentemente, desorganizar a capacidade de reação iraniana. No tabuleiro energético, o efeito é imediato: o preço do petróleo subiu cerca de 20%, ultrapassando os 110 dólares por barril. Relatórios de instituições financeiras — entre elas a Goldman Sachs — alertam que, se as remessas não retomarem pelo Estreito de Ormuz, o barril pode superar o pico de 2008 e se aproximar dos 140 dólares.
Esse movimento tem efeitos em cadeia. Para o cidadão americano já pressionado pela inflação, o aumento dos preços da gasolina agrava uma perda de poder aquisitivo que se soma às distorções provocadas pelas tarifas comerciais. Estudos da própria Fed indicam que, ao fim, cerca de 90% do custo destas tarifas foi absorvido pelos consumidores nos EUA. A recente decisão da Suprema Corte, que impõe reembolsos sobre certas tarifas, complica ainda mais o cenário: formalmente o ressarcimento caberá às empresas importadoras, mas há forte indício de que os custos já foram transferidos ao consumidor final.
A conjuntura macroeconômica também mostra sinais de fragilidade: dados recentes apontam uma contração do emprego em fevereiro, sinal de que o mercado de trabalho americano perde o vigor que teve no período pós-pandemia. Em termos estratégicos, esta combinação — gasto militar elevado, choque petrolífero, pressão inflacionária e enfraquecimento do emprego — desenha um quadro no qual as alavancas de poder dos EUA podem se tornar um peso em vez de um instrumento de estabilidade.
Como observador, é meu dever sublinhar que decisões sem cálculo prévio e sem consulta aos canais diplomáticos clássicos redesenham fronteiras de influência invisíveis. A política externa não é um lance isolado: é sequência de movimentos num tabuleiro onde um erro de avaliação pode abrir diagonais perigosas. A opção pragmática e responsável é isolar ações que corroem a confiança internacional; deixar um jogador tão imprevisível em posição de autoridade é empurrar o sistema para o abismo.
Em suma, a liderança atual dos EUA funciona como um fator de risco sistêmico. Não por incapacidade estrutural do país, mas por uma condução que mistura interesses pessoais, falta de visão de Estado e decisões que reverberam em mercados, na segurança regional e nas vidas cotidianas de milhões. É imperativo que parceiros e aliados reorganizem suas estratégias para conter os efeitos negativos — e, sobretudo, que a própria sociedade americana recupere, com instituições fortes, o domínio sobre o destino coletivo.


