Ucrânia impõe sanções a 'Masha e o Urso' por alegada propaganda russa
Ucrânia sanciona 'Masha e o Urso' por suposta propaganda russa; medidas congelam bens e restringem distribuição em plataformas.
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Ucrânia impõe sanções a 'Masha e o Urso' por alegada propaganda russa
Por Marco Severini — Em um movimento que mescla segurança cultural e estratégia de poder, a Ucrânia anunciou um pacote de sanções que alcança os criadores e distribuidores do desenho animado infantil Masha e o Urso, acusando a série de veicular propaganda russa sob o verniz do entretenimento para crianças.
O decreto, assinado pelo presidente Volodymyr Zelensky, tem foco amplo: além de alvos do complexo militar-industrial, altos funcionários e empresas ligados ao esforço de guerra russo, a lista inclui cinco cidadãos russos e quatro organizações associadas à produção e à circulação de Masha e o Urso. Entre elas figura a Animaccord, o estúdio responsável pela série, bem como seu fundador, CEO e alguns dos principais criadores.
Segundo o gabinete presidencial ucraniano, o desenho "propaga narrativas filo-russas disfarçadas de conteúdo infantil" e constitui uma ameaça à segurança nacional. As medidas preveem o congelamento de bens e restrições a atividades comerciais, incluindo o uso e a distribuição de material protegido por direitos autorais em território ucraniano. Na prática, isso permite limitar ou impedir o acesso a episódios da série em plataformas como YouTube e serviços de streaming.
De Moscou veio pronta condenação. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, qualificou a ação como demonstrativa da "feiúra do regime de Kiev", em reação que reflete a escalada comunicacional entre os dois polos. Este episódio é outro lance num tabuleiro onde as narrativas culturais funcionam como casas sólidas ou alicerces frágeis da diplomacia.
Masha e o Urso é inspirado numa fábula popular russa e acompanha as travessuras de uma menina e de um urso, ex-artista de circo, que convivem na floresta. Lançada em 2009, a série foi traduzida em dezenas de idiomas e conquistou audiência global em mais de 100 países. No YouTube, seu alcance foi monumental: episódios acumularam bilhões de visualizações; "Recipe for Disaster" ultrapassou 4,6 bilhões de visualizações, tornando-se um dos vídeos mais visualizados da plataforma.
No entanto, o sucesso internacional suscitou preocupações sobre o uso de iconografia militar russa e soviética em conteúdos destinados a pré-escolares. Observadores apontaram episódios onde a personagem Masha usa um chapéu associado ao NKVD — a polícia política soviética responsável por campanhas de terror e pelos gulags durante a era de Stalin — ou roupas que lembram uniformes e capacetes de época soviética. Para autoridades em Kiev, tais elementos contribuem para a naturalização de símbolos russos e soviéticos entre crianças.
As inquietações em torno do desenho antecedem a invasão em larga escala de 2022: em 2017, a Agência Estatal do Cinema da Ucrânia já analisou um pedido de proibição, diante de alegações de propagação de narrativas pró-Rússia. Hoje, a decisão de sancionar toca uma fronteira sensível entre propriedade intelectual, segurança informacional e guerra simbólica.
Do ponto de vista geopolítico, a medida ucraniana deve ser lida como um movimento calculado no tabuleiro da influência cultural: não é apenas penalizar produtores, mas afirmar o controle sobre os símbolos que moldam a memória coletiva e a lealdade identitária. Em termos práticos, as restrições podem fragmentar ainda mais espaços digitais, reconfigurando rotas de distribuição e impondo custos reputacionais e econômicos aos estúdios implicados.
Há, portanto, um redesenho de fronteiras invisíveis — cartografia de poder que mistura leis, plataformas e percepções públicas. Em um ambiente onde imagens e símbolos são peças doutro jogo estratégico, a Ucrânia optou por movimentar uma peça de influência cultural de modo a reforçar seus objetivos de segurança e preservação identitária.

