Ítaca espera 'explosão' de turistas após a Odisseia de Nolan: a ilha que Homero nos soprou ao ouvido
Após o filme de Nolan, Ítaca vê esperança de aumento do turismo ligado à Odisseia, misturando mito, arqueologia e charme local.
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Ítaca espera 'explosão' de turistas após a Odisseia de Nolan: a ilha que Homero nos soprou ao ouvido
Ciao, viajante — feche os olhos e imagine o perfume do mar Jónico, a luz dourada que acaricia as pedras e o sussurro das tradições. É assim que se apresenta Ítaca, aquela ilha discreta ao largo da costa ocidental da Grécia continental, que até agora escapava aos roteiros mais concorridos, apesar das suas enseadas de águas cristalinas e do encanto sereno das vilas.
Mas algo mudou: a estreia cinematográfica da Odisseia, dirigida por Nolan, colocou a mítica pátria de Ulisses sob nova luz. Admiradores de Homero e curiosos de cinema já começam a riscar Ítaca dos seus mapas, levando habitantes e comerciantes a imaginar um pulso diferente no futuro do turismo local.
«Aprendi grego quando era criança e estudei a Odisseia. Gosto de Ulisses. Este é o meu sonho», diz emocionada a advogada italiana Giorgia Ongarato, que desembarcou na ilha com os olhos brilhando, tal como quem reencontra uma história de família.
Do lado oficial, o presidente da Câmara, Dionysis Stanitsas, mostra cautela e esperança: ainda não se nota uma afluência massiva imediatamente após a estreia, mas espera-se que o efeito se amplie gradualmente à medida que o filme for sendo exibido pelo mundo. «Consideramos que esse planeamento será feito a partir do próximo ano, à medida que o filme for estreando, gradualmente, em todo o mundo. Assim, todos vão querer vir à ilha», afirma.
Enquanto isso, na rua principal e junto às docas, a conversa dos comerciantes já mudou de tom. Chími Hótsa, dono de um restaurante, percebe sinais claros de curiosidade: «Os turistas com quem tenho contactado já falam disso e dizem que acreditam que vai surgir algo de positivo. Embora o filme ainda não tenha sido lançado em todas as salas de cinema, já começou a dar visibilidade à ilha e a aumentar a sua notoriedade», conta, imaginando mesas cheias à beira-mar, aromas de prato caseiro e brindes ao pôr do sol.
Os anos de tradição também dão pistas. Para muitos visitantes, a principal motivação para chegar até aqui é a lenda. Ioanna Griva, proprietária de loja de recordações, resume com simplicidade: «As pessoas vêm porque conhecem a lenda de Ulisses e Homero, que escreveu a Odisseia. Penso que esse é o motivo principal, mas é também uma ilha pequena e muito bonita.»
Na aldeia de Stavros, a exposição permanente «Luz sobre a Ítaca homérica» expõe achados arqueológicos que tecem pontes entre a ilha moderna e o imaginário épico — um convite para saberar a história com todos os sentidos. Teagan Messing, turista norte-americana e antropóloga, vê no filme um catalisador de interesse: «Acho que é uma boa forma de despertar o interesse de mais pessoas por Homero e, em geral, pela mitologia. Mas, certamente, o filme não é fiel ao texto original.»
O filólogo e arqueólogo Spyros Kouvaras olha à frente com otimismo pragmático: aguarda um aumento significativo de visitantes no próximo ano, prevendo até uma extensão da temporada para meses normalmente calmos, como outubro ou mesmo novembro, e também março e abril. «Concluo dizendo que, por detrás disto, está o filme de Nolan numa primeira fase, mas, por detrás do filme de Nolan, está Homero», ressalva.
Para mim, Erica Santini, este é um daqueles momentos em que o turismo encontra a poesia: Ítaca pode virar destino de peregrinação cultural, um lugar onde se navega pelas tradições, se saboreia a história e se experimenta o dolce far niente entre vinhedos, tabernas e ruínas. Andiamo — a ilha chama, com a voz antiga de quem sempre soube que as grandes histórias atraem viajantes com fome de autenticidade.