Tracce: espetáculo inclusivo e itinerante nos bosques que reconecta infância, arte e sentidos

Tracce: espetáculo inclusivo e itinerante nos bosques para crianças autistas e neurodivergentes. Música, natureza e dramaturgia sensorial.

Tracce: espetáculo inclusivo e itinerante nos bosques que reconecta infância, arte e sentidos

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Tracce: espetáculo inclusivo e itinerante nos bosques que reconecta infância, arte e sentidos

Por Chiara Lombardi — Em Bergamo nasce Tracce, um espetáculo imersivo e inclusivo pensado para crianças a partir dos sete anos no espectro autista, neurodivergentes e com deficiências cognitivas. Mais do que uma peça, é um dispositivo cenográfico que propõe um novo modo de participação: o palco é a paisagem e o público é convidado a percorrê-la.

A produção é eminentemente colaborativa e internacional: a companhia bergamasca Pandemonium — centro de produção para infância e juventude ativo desde 1988 — une forças com a ArteVox, fundada há 18 anos em Vimercate e conhecida por colocar a acessibilidade e a inclusão no centro de sua pesquisa; juntam-se também Campsirago Residenza e a inglesa Bamboozle Theatre Company, de Leicester, referência no teatro inclusivo desde 1983.

Os ensaios finais acontecem na serenidade dos bosques que cercam o borgo acima de Colle Brianza, onde o grupo permanece reunido até sexta-feira. A direção é de Michele Losi, com cenografia e figurinos assinados por Rossana Maggi. Uma prova aberta foi marcada para 1º de abril, às 15h; o estreio oficial está previsto para os dias 5 e 6 de junho, no festival Vimercate dei Ragazzi.

O rito de entrada é um convite musical: os atores-músicos bergamascos Flavio Panteghini e, em revezamento, Federico Piscitello, acompanhados por Liliana Benini, recebem os participantes com violão, conduzindo-os pelos trechos do trajeto e encerrando com uma canção final. A figura-guia, interpretada por Marta Galli ou Anna Maini (da ArteVox), orienta o grupo até a segunda estação — a casa de um texugo — onde se estabelece uma experiência sensorial cuidadosa e livre de descrições verbais.

O percurso solicita um pacto de união, simbolizado por uma corda oferecida livremente: quem quiser pode segurá-la como referência tátil ao longo do trajeto. Dois atores de Pandemonium acompanham a caminhada com instrumentos tradicionais — uma ocarina de terracota e o sivlì, um pequeno flauta de três furos —, produzindo sons que se entrelaçam aos ruídos do ambiente.

Os intérpretes afirmam: “Cuidamos dos participantes”. Os timbres nascem também de folhas secas, ramos e pedras; esses elementos são capturados e mixados ao vivo por Luca Maria Baldini, designer de som que, no espetáculo, veste a pele simbólica de uma salamandra. Essa escolha evidencia um princípio essencial: a natureza, quando integrada com sensibilidade, pode reduzir a sobrecarga sensorial e favorecer relaxamento e atenção entre pessoas autistas.

Em um dos momentos, o público encontra a fêmea do texugo em seu ninho subterrâneo — um não-lugar narrativo que privilegia o ver, o tocar e o cheirar sem depender de linguagem explicativa. Ali, um personagem enraizado à terra convida à experimentação sensorial, numa dramaturgia que reframe a paisagem como memória coletiva e como espelho de nosso tempo.

Tracce não é apenas um espetáculo para ser visto: é um roteiro afetivo que reconta a relação entre arte, criança e ambiente. Como numa cena cuidadosamente filmada em plano-contínuo, o projeto propõe um reencantamento dos sentidos, onde o teatro itinerante atua como um reframe da realidade e como um eco cultural que questiona quem, afinal, tem direito à cultura.