Por que o 25 de abril reabre feridas? O dilema da memória italiana entre rievocação e uso político

Por que o 25 de abril reabre feridas? Análise da memória italiana, o uso político das lembranças e os números dos combatentes.

Por que o 25 de abril reabre feridas? O dilema da memória italiana entre rievocação e uso político

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Por que o 25 de abril reabre feridas? O dilema da memória italiana entre rievocação e uso político

Por Giulliano Martini — A cada ano, o 25 de abril volta a apresentar a mesma fenda aberta na sociedade italiana: de um lado, manifestações de esquerda, carregadas de coro e combatividade, que tratam o fantasma do fascismo como ameaça atual e recorrente; do outro, a maioria dos italianos que prefere a gita, pouco sensível às rievocações político-históricas. O resultado é uma Itália dividida — hoje em cenas que beiram o surreale-ridículo; outrora, de fato, partida por uma guerra que assumiu caráter civil.

Na minha apuração in loco e no cruzamento de fontes históricas, identifico três reações recorrentes que prejudicam a autenticidade da memória coletiva: a reapropiação ritual-ideológica, o oblio histórico substancial e um indiferentismo generalizado. Nenhuma dessas respostas é saudável para uma nação que pretende celebrar a reconciliação.

Não é aceitável, por exemplo, apagar a pluralidade política dos que tomaram a montanha: muitos partigiani não eram de esquerda, mas liberais, católicos e até monarchici — e, não por acaso, a bandeira italiana usada por determinados grupos de resistência tinha caráter monárquico. Tampouco é correto transformar o 25 de abril numa mitologia de insurreição total do povo contra um fascismo homogêneo: a história é mais complexa e exige precisão.

Também é desconfortável admitir que a libertação do país teve um papel decisivo das forças angloamericanas. Dizer isso não diminui o valor do coragem ou da independência dos que escolheram resistir; pelo contrário, reforça a necessidade de reconhecer o contexto internacional e militar que determinou os desfechos. A escolha individual, muitas vezes, era condicionada por dinâmicas sociais e pelo medo — fatores que o rigor jornalístico precisa sempre considerar.

Os números históricos, quando cruzados com estudos acadêmicos e memórias documentadas, são impiedosos: cerca de 50.000 partigiani nas montanhas (não reconhecidos formalmente pelos Aliados como forças combatentes), 50.000 italianos que lutaram no Corpo di Liberazione Nazionale no Sul, integrados às tropas angloamericanas, e aproximadamente 500.000 combatentes da Repubblica Sociale Italiana, com cerca de 100.000 mortos entre suas fileiras. Esses dados, lembrados por historiadores contemporâneos como Alessandro Barbero, exigem ser apresentados sem revanchismos.

Se queremos que o 25 de abril seja uma festa de todos — de paz e reconciliação nacional — é indispensável restituir a história com precisão, evitando que a data seja reaproveitada para fins de auto-consolidação partidária ou rituais de identidade. A reconciliação exige reconhecer ambivalências, tensões e responsabilidades, e não apenas encenar um passado conveniente.

Coloco também uma questão prática e ética: o que fariam, em 1943, muitos dos que hoje marcham com o punho erguido e simbologia de ocasião? O peso das pressões sociais e o instinto de autopreservação sugerem que muitos teriam optado pela conformidade ou pelo silêncio. A leitura contemporânea desses comportamentos precisa ser feita com cuidado, sem anacronismos e com base em evidências.

Feito o diagnóstico, quais são as vias possíveis para superar a fissura anual? Em primeiro lugar, educação histórica robusta e baseada em fontes documentais; em segundo, atos públicos de memória que privilegiem a pluralidade de experiências; em terceiro, o compromisso das forças políticas em não instrumentalizar a data. Sem esses passos, cada 25 de abril continuará a abrir uma ferida em vez de curá-la.

Minha recomendação, na esteira da apuração rigorosa: transformar a celebração num momento de exame crítico e coletivo — com mesas públicas, arquivos abertos e debates que cruzem testemunhos, documentos militares e análises acadêmicas. Só assim será possível deslocar a data do campo da rievocação ritual para o terreno da compreensão compartilhada.