Alpes se preparam para invernos com menos neve: comunidades testam alternativas ao modelo tradicional

Alpes se reorganizam para invernos com menos neve: projetos pilotam alternativas ao turismo de inverno dependente do branco.

Alpes se preparam para invernos com menos neve: comunidades testam alternativas ao modelo tradicional

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Alpes se preparam para invernos com menos neve: comunidades testam alternativas ao modelo tradicional

Por Giulliano Martini — Viagem da Eslovênia à Itália para averiguar como as comunidades alpinas estão se reorganizando diante de invernos progressivamente menos brancos. Com cerca de 80 milhões de habitantes na região e mais de 2.000 estações de esqui, o arco Alpino enfrenta uma mudança estrutural que exige adaptação urgente.

Em Bohinj, na Eslovênia, o cotidiano na chegada da teleférica do Monte Vogel oferece um indicador claro dessa transformação. Clara, 25 anos, aluga equipamento de esqui no ponto de desembarque. Filha de um instrutor de esqui que trabalha na França e ex-competidora, ela descreve uma infância em que as crianças construíam iglus — memórias que hoje soam deslocadas. "A primeira coisa que faço ao acordar é olhar a previsão do tempo: finalmente vai nevar?", diz ela, observando que a neve artificial é limitada pela falta de água na região.

Metade das pistas de Vogel está aberta; a pista que descia até o vale permanece fechada há sete anos. A presença de neve natural depende ora de frio intenso, ora do improviso. No vilarejo à beira do lago de Bohinj, Klemen Langus, que conduz uma operadora de turismo há duas décadas, observa mudanças nas estações: "Há 15 anos o inverno representava 35% do movimento turístico; hoje não passa de 20%". O verão trouxe crescimento e receita, mas também overtourism nos meses quentes e abandono no inverno.

Essa realidade levou Bohinj a integrar, entre 2022 e 2025, o projeto europeu Beyond Snow (alpine-space.eu/project/beyondsnow/), coordenado por Andrea Omizzolo e Philipp Corradini, do centro de pesquisa Eurac em Bolzano. O consórcio selecionou dez localidades alpinas para experiências-piloto que testam alternativas ao modelo dependente da neve: encontros comunitários, intercâmbio transfronteiriço e iniciativas que buscam viabilizar um futuro "além da neve".

O roteiro da apuração incluiu também a Itália, em áreas de média altitude onde o aquecimento reduz consistentemente a cobertura de neve. Um projeto proposto em 2012 para ampliar os sistemas de telecadeiras na área de Kobla, divulgado inclusive em Londres, foi arquivado — uma decisão hoje entendida como prudente. Em vários pontos, optou-se por manter e reativar infraestruturas menores, como um antigo skilift destinado a crianças, em vez de investir em grandes empreendimentos que exigiriam recursos hídricos e energéticos intensivos.

Do ponto de vista técnico e socioeconômico, as barreiras são claras: produção de neve artificial depende de água e energia; a variabilidade climática torna investimentos de longo prazo arriscados; e o aumento do turismo de verão pressiona ecossistemas frágeis. As respostas testadas pelo Beyond Snow privilegiam medidas de governança local, diversificação de produtos turísticos (rota de trilhas, estações de ciclismo, atividades culturais) e gestão integrada dos recursos hídricos.

O raio-x do cotidiano nas comunidades visitadas mostra um ajuste lento, mas em curso: requalificação de infraestruturas, promoção de temporadas prolongadas fora do pico de inverno e cooperação transnacional para compartilhar soluções e fundos europeus. "Não se trata apenas de perder a neve — trata-se de redesenhar a economia de montanha", resume um dos coordenadores do projeto.

As conclusões preliminares do consórcio apontam que, se as tendências atuais de aquecimento persistirem, muitas áreas de média altitude terão de abandonar a dependência da neve como motor econômico principal. A alternativa é estruturar um turismo mais resiliente, com base em ecossistemas, patrimônios culturais e serviços que funcionem independentemente do manto branco.

O desafio é prático e imediato: adaptar infraestruturas, realocar investimentos e administrar o crescimento estival sem esvaziar a vida local nos meses frios. Para as comunidades alpinas, a missão expressa em poucas palavras é direta: dovremo andare oltre la neve — teremos de ir além da neve.