Draghi: 'Somos sozinhos juntos' — Europa deve 'responder assertivamente' aos EUA, diz ex-presidente do BCE

Draghi alerta que a Europa está 'sozinha junto' aos EUA; pede capacidade de 'responder assertivamente' e defende 'federalismo pragmático' para agir.

Draghi: 'Somos sozinhos juntos' — Europa deve 'responder assertivamente' aos EUA, diz ex-presidente do BCE

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Draghi: 'Somos sozinhos juntos' — Europa deve 'responder assertivamente' aos EUA, diz ex-presidente do BCE

Em discurso na cerimônia de entrega do Prêmio Carlo Magno, em Aquisgrana (Aachen), o ex-presidente do Banco Central Europeu e ex-primeiro-ministro italiano Mario Draghi fez um alerta claro sobre a nova geopolítica que molda a segurança europeia. Para Draghi, o parceiro do qual a Europa ainda depende se tornou "mais conflituoso e imprevisível" e está na hora de a União Europeia ajustar sua postura.

Segundo Draghi, a estratégia europeia de negociações e compromissos — concebida para desescalar tensões — frequentemente fracassou e, em alguns casos, acabou incentivando uma escalada. "Por ora, a Europa precisa da capacidade de responder assertivamente para restabelecer uma parceria em bases mais equitativas", afirmou o ex-premier, aplaudido de pé por uma plateia que incluiu o presidente do Partido Democrata alemão Friedrich Merz, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, a atual presidente do BCE Christine Lagarde, e os primeiros-ministros da Albânia e da Grécia, Edi Rama e Kyriakos Mitsotakis.

Draghi não minimizou as dificuldades. "Não quero fingir que o futuro da Europa seja fácil. A pressão sobre nosso continente é profunda e aumenta mês a mês." Ao mesmo tempo, o ex-chefe de governo destacou que a crise atual revela conteúdos essenciais: forças externas estão empurrando os europeus a reconhecerem, novamente, o que têm em comum e o que estão dispostos a construir coletivamente. "Isto deve nos dar confiança e clareza sobre a dimensão da tarefa", disse.

Em um trecho do discurso que ganhou repercussão, Draghi afirmou que, em um mundo de alianças fluídas, "cada dependência estratégica deve ser reexaminada". Para ele, "pela primeira vez na memória, somos realmente sozinhos juntos". Há, segundo Draghi, a possibilidade inusitada desde 1949 de que os EUA não consigam mais garantir a segurança europeia nas condições que antes eram tidas como certas. "Nem a China oferece uma alternativa confiável", acrescentou.

O ex-presidente do BCE fez também um diagnóstico institucional. A ação coletiva ao nível dos 27 Estados-membros muitas vezes não se mostra capaz de atender às demandas do momento; o resultado pode ser uma resposta tão inadequada que se torna pior do que a inação. Para romper esse ciclo, Draghi propõe que os países mais sensíveis ao peso da situação avancem, sem ficarem presos ao ritmo do conjunto. É o que chamou de federalismo pragmático.

Na prática, explicou, os Estados com vontade de agir devem aprofundar a cooperação em áreas concretas por meio de instrumentos que entreguem resultados palpáveis ao cidadão. Cada adesão a iniciativas mais estreitas deveria ocorrer por meio de uma escolha nacional deliberada, com mecanismos que permitam medir progresso e prestar contas.

O tom do discurso foi de urgência técnica e política: reavaliar dependências estratégicas, fortalecer capacidades europeias e criar vias práticas para a ação conjunta. A mensagem de Draghi, em Aquisgrana, reforça que a Europa enfrenta um momento de transição geopolítica e institucional que exigirá decisões objetivas e mensuráveis — sem ilusões, com foco nos fatos brutos e no raio-x do cotidiano político.

Apuração em campo e cruzamento de fontes confirmam que o discurso terá impacto nas discussões sobre defesa, autonomia estratégica e mecanismos de cooperação reforçada dentro da União Europeia nas próximas semanas.