Fragmento da Ilíada encontrado dentro de uma múmia no Egito reescreve história dos achados arqueológicos

Fragmento da Ilíada é encontrado dentro de uma múmia no sítio de Al Bahnasa (Oxyrhynchus), descoberta inédita que reabre estudos sobre práticas funerárias.

Fragmento da Ilíada encontrado dentro de uma múmia no Egito reescreve história dos achados arqueológicos

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GERADO EM: Abr 22, 2026 às 16:28

Fragmento da Ilíada encontrado dentro de uma múmia no Egito reescreve história dos achados arqueológicos

Arqueólogos do Instituto de Estudos do Próximo Oriente da Universidade de Barcelona descobriram um papiro com um trecho da Ilíada em uma múmia romana no Egito, um achado inédito. O fragmento foi encontrado em uma sepultura durante escavações na antiga Oxyrhynchus, em 2025, e datado em cerca de 1.600 anos. A equipe identificou que se trata do "Catálogo das Naus" (Livro II) da obra, algo raro em contextos funerários, onde, normalmente, papiros continham textos mágicos ou litúrgicos. Essa descoberta lança novas luzes sobre as práticas funerárias helenizadas e a circulação de textos na sociedade egípcia. A pesquisa continua, com mais análises planejadas antes da publicação dos resultados finais.

Fique por dentro de todos os pontos deste artigo lendo a versão completa a seguir.

Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes: arqueólogos da missão de Oxyrhynchus do Instituto de Estudos do Próximo Oriente da Universidade de Barcelona anunciaram a descoberta de um papiro contendo um trecho da Ilíada no interior de uma múmia de época romana, em um achado que os especialistas classificam como "sem precedentes" para a disciplina.

O fragmento foi localizado durante a campanha realizada entre novembro e dezembro de 2025 no sítio conhecido como Al Bahnasa — identificado com a antiga Oxyrhynchus —, no Egito central, a cerca de 190 quilômetros ao sul do Cairo, ao longo do ramo do Nilo conhecido como Bahr Yussef. O local confirma-se como um dos principais polos de descobertas referentes ao mundo greco-romano.

Os escavadores recuperaram um complexo funerário em calcário com três câmaras e numerosas sepulturas, muitas das quais danificadas por saqueadores em épocas antigas. Foi na Tumba 65 do Setor 22, colocada sobre o abdômen de uma múmia como parte do ritual de embalsamamento, que a equipe identificou o pedaço de papiro. A peça é datada em aproximadamente 1.600 anos.

O anúncio oficial da equipe liderada pela arqueóloga espanhola Núria Castellano foi seguido por um estudo técnico realizado entre janeiro e fevereiro de 2026. A restauradora Margalida Munar, a papirologa Leah Mascia e o filólogo Ignasi-Xavier Adiego conduziram a análise que permitiu identificar o texto: trata-se do trecho conhecido como "Catálogo das Naus" (Livro II) da Ilíada, a seção que lista as forças gregas envolvidas na expedição a Troia.

Segundo os pesquisadores, a singularidade do achado reside no contexto de deposição. Até agora, os papiros encontrados associados a processos de embalsamamento apresentavam conteúdo mágico, ritual ou litúrgico. Este é, conforme a publicação da Universidade de Barcelona, o primeiro caso documentado em que um texto literário grego foi inserido intencionalmente no processo funerário.

O raio-x do cotidiano arqueológico que este episódio oferece é duplo: por um lado, amplia o repertório de usos culturais atribuídos aos papiros na época romana do Egito; por outro, impõe nova leitura sobre as práticas funerárias em contextos helenizados. A descoberta reabre questões sobre circulação de textos literários, acesso à cultura grega em comunidades egípcias e sobre o propósito preciso de integrar um poema épico ao rito de preservação do corpo.

Os responsáveis pelo estudo mantêm postura cautelosa: não há indicações de um uso mágico da passagem encontrada, e as conclusões sobre intenção ritual ou simbólica dependem de análises complementares — inclusive estudos de contexto arqueológico, análise química do material e comparações com outros achados do sítio.

O trabalho de campo e de laboratório segue em andamento. A equipe promete publicar em detalhe os resultados filológicos e estratigráficos em revista científica sujeita a revisão por pares. Enquanto isso, o fragmento da Ilíada permanece como um dado bruto e verificável: um texto épico embutido no tecido de uma prática mortuária romana, em pleno coração do Egito antigo.