I figli si baciano di notte: Andrea Vianello transforma um cinema abandonado em espelho do luto
Andrea Vianello lança I figli si baciano di notte, romance sobre vozes em cinema abandonado, luto paterno e memória urbana em Roma.
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I figli si baciano di notte: Andrea Vianello transforma um cinema abandonado em espelho do luto
No festival Pordenonelegge, o jornalista e ex-diretor da Rai3, Andrea Vianello, apresentou o seu novo romance I figli si baciano di notte, publicado pela editora Solferino. A obra constrói uma narrativa suspensa entre mistério, memória e luto, ambientada numa periferia romana onde um antigo cinema, fechado há décadas, volta a emitir vozes que ninguém consegue explicar.
O ponto de partida é simples e inquietante: as vozes de alguns rapazes emergem do interior de um velho cinema abandonado da periferia de Roma. O edifício, aparentemente vazio, transforma-se num palco para um enigma coletivamente sentido — curiosos, investigadores, solitários e sobreviventes reúnem-se ao redor da fachada, enquanto a polícia investiga sem encontrar rastros. As vozes persistem e pedem, de forma sempre insistente, para falar com os seus pais.
É precisamente o diálogo interrompido entre pais e filhos que ocupa o cerne do romance. Vianello explora a forma como os pais enlutados reagem fechando-se em si mesmos, fragmentando também as relações entre eles; os filhos — ou pelo menos as vozes que parecem ser deles — retornam para exigir que esse silêncio seja quebrado. O tema é íntimo e social: trata-se da dificuldade de comunicar sentimentos numa masculinidade pautada pelo pudor, um tema que o autor faz convergir com a geografia urbana de Roma, onde muitas salas de cinema fecharam e deixaram «buracos da nossa memória».
Sobre o tom da obra, Vianello reconheceu a influência da literatura latino-americana. «Tenho um pouco de receio em chamar assim, mas…», disse o autor ao público, ao aludir ao rótulo de realismo mágico. Sua formação em literatura brasileira e sul-americana, e a fascinação por autores como Gabriel García Márquez e Juan Rulfo — especialmente Pedro Páramo, com suas vozes que habitam territórios entre vivos e mortos — são pontes evidentes para o imaginário do livro.
O cinema abandonado funciona aqui como uma metáfora urbana: um ecosistema de memórias coletivas onde o passado insiste em falar. Esta construção remete ao que chamo de roteiro oculto da sociedade — espaços concretos que, como cenas de um filme esquecido, conservam camadas de afeto e perda. Vianello captura essa tensão com elegância, propondo que a memória é, talvez, o solo onde se pode reconstruir um diálogo que parecia perdido.
O romance sugere, portanto, que o retorno dos jovens não é apenas um fenómeno sobrenatural, mas uma urgência ética: pedir palavras, pedir presença, pedir que o silêncio do machismo paternal seja revertido por uma linguagem mais aberta entre gerações. "Acredito que precisamos de mais palavras", declarou o autor, ligando o tema ao título, que retoma um antigo ditado popular — i figli si baciano di notte — remetendo ao pudor paterno e à intimidade adiada.
Em última instância, I figli si baciano di notte é um romance que não se limita ao mistério; é um espelho do nosso tempo, uma semiótica do viral afetivo que nos convida a repensar laços, memórias e as falas que nos constituem. Como observadora cultural, vejo no livro um convite elegante e perturbador: olhar para os espaços vazios da cidade como cenários de transformação e reabrir o diálogo que o luto parecia ter fechado.

