Cesare Cremonini recomeça com 'Paparazzi': o graffio rock de um novo começo
Cesare Cremonini reinventa-se com 'Paparazzi', single áspero de 'Amateur' — rock, ironia e a crítica à cultura da imagem. Álbum em 23 de outubro.
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Cesare Cremonini recomeça com 'Paparazzi': o graffio rock de um novo começo
Cesare Cremonini volta a provocar o cenário musical. Não com o conforto esperado dos grandes estádios, mas com um som nervoso e instintivo que anuncia uma reinvenção. “Paparazzi”, lançado à meia-noite como primeiro single de “Amateur” — álbum inédito com estreia marcada para 23 de outubro — é uma faixa áspera, irônica e cheia de adrenalina, pensada como o debut de uma banda rock alternativa vinda da periferia de Londres.
Trata-se menos de um retorno e mais de uma recomeçada. Cremonini deixa de lado a solenidade da popstar consagrada para reencontrar o gosto pelo instinto: guitarras sinuosas, groove seco, sopros que irrompem com força e uma voz que transita entre provocação e paradoxo. O resultado soa como um espelho do nosso tempo — a imagem tornando-se mais crível que os fatos, o relato suplantando o real, e até a própria verdade assumindo a forma de produto de consumo.
Em “Paparazzi”, Cremonini percorre esse terreno com sarcasmo e precisão semiótica. Ele chama para o centro do palco celebridades, fotógrafos e a fome contemporânea de aparecer: “Volevo fare la popstar ma sono Diletta Leotta”, diz a letra para aqueles que acreditam mais nas câmeras do que na realidade. A canção culmina numa linha que sintetiza o espírito do tema: “Anche se la verità è una bugia più grossa, ti hanno beccato una volta però la foto era mossa”.
“Escolhi ‘Paparazzi’ como primeiro single porque tem esse som ruivo e adrenalínico dos primeiros passos; parece o lançamento de uma banda que saiu da periferia de Londres”, conta Cremonini, explicando a vontade de ouvir algo mais cru no rádio e testar se podia ser ele a produzi-lo. O texto, coescrito com Davide Petrella, não pretende explicar o presente: transforma-o numa farsa grotesca onde a máscara do sucesso se sobrepõe ao sujeito.
O título do álbum, Amateur, é a resposta estética a essa inquietação. Não se trata de inexperiência, mas da escolha de voltar ao estado de quem faz por amor: ser amador no sentido mais puro — tocar sem a obrigação de confirmar um legado, despir a máscara da carreira e redescobrir a surpresa. “Procurei crescer com minha música e percebi que o ponto de chegada era desfrutar da liberdade de fazê-la”, diz o artista. “Tocar esquecendo de si, voltar a ser estreante, assim a arte surpreende.”
Para materializar essa mudança, a formação que acompanha Cremonini é quase inteiramente renovada. Além dele e dos colaboradores históricos Alessandro Magnanini e Alessandro De Crescenzo, participam Malcolm Catto na bateria, Donny McCaslin nos saxofones e Paul Stacey nas guitarras — músicos que emprestam textura e credibilidade ao reframe sonoro proposto.
Em cena resta, portanto, não apenas uma nova canção, mas um gesto: o de um artista que prefere desconstruir sua imagem a repeti-la, oferecendo ao público a possibilidade de ouvir o roteiro oculto de sua própria transformação. “Paparazzi” é o primeiro take desse novo filme sonoro.

