Salman Rushdie recebe a honraria 'Ambassador of Freedom' em Pordenonelegge: a literatura como resistência
Salman Rushdie recebe a honraria Ambassador of Freedom em Pordenonelegge, reforçando a literatura como defesa da liberdade de expressão.
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Salman Rushdie recebe a honraria 'Ambassador of Freedom' em Pordenonelegge: a literatura como resistência
Por Chiara Lombardi — No Teatro Verdi de Pordenone, a 27ª edição do festival Pordenonelegge foi oficialmente inaugurada com a entrega da honraria Ambassador of Freedom ao escritor Salman Rushdie. A cerimônia, que colocou no centro do debate a liberdade de expressão e o papel da literatura como defesa da palavra livre, teve um tom ao mesmo tempo solene e profundamente simbólico.
Introduzido por Michelangelo Agrusti, presidente da Fundação Pordenonelegge, Rushdie foi apresentado como um fio condutor que conecta trajetórias pessoais e coletivas: da sua própria história — marcada pelo atentado que sofreu em 2022 — à evocação dos valores de liberdade e independência ressaltados pelo presidente da República, Sergio Mattarella. A curadoria do festival também lembrou a memória e a coragem de vozes como a da jornalista russa Anna Politkovskaja, e destacou o espaço dado a múltiplas perspectivas na Dissensio Arena.
A diretora da Fundação, Michela Zin, leu a motivação oficial do prêmio: “A Sir Salman Rushdie, escritor do mundo, consciência livre do nosso tempo, confere-se a honraria Ambassador of Freedom por ter transformado a palavra não apenas em ofício, mas em ato de coragem. Sua obra atravessou fronteiras, identidades, religiões e medos, lembrando-nos que a literatura é o locus mais radical da liberdade, onde tudo pode ser dito, imaginado e contestado. Diante da violência sofrida em 2022, Rushdie continuou a escrever e a pensar, pagando um preço alto pela liberdade de expressão.”
Em seguida, Rushdie participou do encontro “Linguagens da verdade”, em conversa com o jornalista Federico Rampini. A entrevista percorreu memórias pessoais, a persistência criativa e a insistência em transformar o insulto e a ameaça em matéria de reflexão pública. O escritor deixou claro o valor da escrita como gesto de resistência: uma espécie de roteiro íntimo que recodifica o medo em significado — a literatura como espelho do nosso tempo, e como reframe da realidade.
Rushdie também comentou sobre sua viagem de volta aos Estados Unidos, onde foi anunciado que deverá comparecer à estreia, em Nova York, do documentário Knife, dirigido por Alex Gibney. O filme reconstrói o atentado de 2022 e o longo percurso de recuperação do autor, incorporando o vídeo-diário feito por sua esposa, a poeta e fotógrafa Rachel Eliza Griffiths. “Espero conseguir chegar a tempo”, disse Rushdie durante a coletiva em Pordenone, admitindo que a logística de viagem está complicada. Ele definiu o documentário como “um bom filme” e elogiou a sensibilidade de Gibney na abordagem do tema — o documentário toma como base o testemunho íntimo e a lente que a família ofereceu para entender o choque e a reconstituição da vida.
Ao final, a cena na qual Rushdie sobe ao palco e recebe a insígnia do festival age como uma pequena cena cinematográfica: a imagem pública e o roteiro privado se encontram, revelando o eco cultural de uma vida dedicada à escrita. Nomeá-lo Ambassador of Freedom não é apenas um gesto protocolar, é um enunciado político e estético — um lembrete de que a liberdade é prática diária, frágil e precisa ser defendida com arte, imaginação e coragem.
Em tempos em que a palavra continua a ser contestada, a nomeação de Rushdie em Pordenonelegge funciona como uma convocação para reconsiderarmos a função da literatura: não apenas para entreter, mas para resistir, interrogar e redesenhar possíveis futuros.

