Fascículos da 'Nuova Antologia' aparecem no Castelo de Bran: teriam pertencido à rainha Maria da Romênia?
Cerca de 40 fascículos da Nuova Antologia foram achados no Castelo de Bran; investigação pergunta se pertenceriam à rainha Maria da Romênia.
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Fascículos da 'Nuova Antologia' aparecem no Castelo de Bran: teriam pertencido à rainha Maria da Romênia?
Uma descoberta que mistura patrimônio, literatura e um leve aroma de mistério cultural: cerca de quarenta fascículos da histórica revista italiana Nuova Antologia, datados entre 1932 e 1938, foram identificados nas estantes do Castelo de Bran, na Transilvânia. O achado acende uma questão que transcende o pitoresco do turismo literário e convoca a curiosidade historiográfica: seriam essas cópias parte da biblioteca pessoal da rainha Maria da Romênia?
O contexto histórico torna a hipótese sedutora. Bran entrou na vida de Maria em 1º de dezembro de 1920, quando a cidade de Brașov ofereceu o castelo à soberana em reconhecimento ao seu papel durante a Primeira Guerra Mundial e na consolidação da Grande Romênia. Maria transformou a antiga fortaleza em residência privada e confiou a restauração ao arquiteto Karel Liman; o castelo tornou-se uma de suas moradas preferidas. É nesse cenário que devemos ler a presença dos fascículos italianos hoje visíveis no local.
As cópias encontradas correspondem, em sua maioria, aos anos 1932 a 1938 — cruzando-se com o período em que Nuova Antologia foi publicada sob a direção, a partir de 1932, de Luigi Federzoni, então presidente do Senado italiano. A cronologia é eloquente: não se trata de exemplares depositados no acervo décadas após a morte da rainha, mas de números que circularam justamente enquanto Maria vivia e frequentava Bran.
Há ainda um indício documental que acrescenta textura ao enigma. Um relato do jornal romeno Curentul, publicado em 1937, registra que em 18 de novembro de 1935 a rainha entrou pessoalmente numa livraria italiana em Bucareste, passou várias horas interessando-se por autores e adquiriu uma coletânea completa de obras. O registro não prova, por si só, que entre as compras estivesse Nuova Antologia, mas confirma algo menos óbvio: Maria não era uma solenidade distante da cultura italiana; ela frequentava os pontos onde essa cultura era vendida e consumida.
Atualmente não existe, conforme apurações divulgadas pela Fundação Spadolini Nuova Antologia de Florença, um documento que permita atribuir com certeza absoluta a aquisição desses fascículos à rainha. Por isso, a fundação defende que a pergunta merece aprofundamento nos inventários históricos da biblioteca real: é nesse tipo de arquivo que o roteiro oculto da história pode emergir com firmeza.
Como observadora do entrelaçamento entre memória e superfície cultural, lembro que esse episódio funciona como um espelho do nosso tempo: a presença de periódicos italianos num palácio romeno é mais do que curiosidade museológica — é um sinal das conexões intelectuais e das circulações editoriais entre Itália e Romênia no entre-guerras. Revela também o papel das coleções privadas como cenários de construção identitária, onde a escolha de um título pode ser leitura política, estética ou sentimental.
O chamado é claro para historiadores do livro, arquivistas e curadores: vasculhem-se os inventários, comparem-se marcas de proveniência, etiquetas e anotações de posse. Só a investigação documental poderá confirmar se os fascículos foram, de fato, parte da biblioteca da rainha Maria da Romênia — ou se chegaram a Bran por outros circuitos. Até lá, esses exemplares permanecem um eco cultural fascinante, lembrando que, por trás de qualquer vitrine turística, corre sempre um roteiro de vidas, escolhas e, às vezes, segredos.
Chiara Lombardi, para Espresso Italia.

