John Malkovich em Veneza 83: “Não vou me aposentar; o que importa é o filme”
John Malkovich em Veneza 83: diz que não vai se aposentar e celebra a atenção a Wild Horse Nine, filme de Martin McDonagh ambientado na Ilha de Páscoa.
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John Malkovich em Veneza 83: “Não vou me aposentar; o que importa é o filme”
Por Chiara Lombardi — No tapete vermelho de Veneza 83, John Malkovich desmontou com elegância qualquer roteiro de despedida: “Não tenho intenção de ir para a aposentadoria; pretendo continuar fazendo o que gosto”. A frase chega como um refrão discreto, menos sobre ego e mais sobre a dedicação contínua ao ofício — uma ética de trabalho que, para ele, fala mais alto do que qualquer prêmio.
O ator chegou ao Lido para apresentar em competição Wild Horse Nine, a nova obra de Martin McDonagh, e preferiu minimizar o burburinho já palpável em torno de possíveis indicações ao Oscar. “É uma gentileza incrível. Para mim, é algo muito bonito. Mas o que realmente conta é que o filme esteja recebendo atenção. Tem vários intérpretes extraordinários e é esplendidamente escrito e dirigido. É isso que importa”, disse Malkovich durante a coletiva.
Na mesma fala, ele explicou por que aceitou o papel: “Como muitos atores, escolho personagens por aquilo que ainda não fiz. Foi uma decisão muito fácil: o roteiro era maravilhosamente escrito. No passado, já haviam me enviado outros roteiros do Martin que eu não pude aceitar por conta de outros compromissos”. A mensagem é clara — para Malkovich, o critério é artístico e a continuidade no trabalho é desejada, não uma cerimônia de encerramento.
Wild Horse Nine se passa pouco antes do golpe de Estado no Chile, em 1973, e acompanha dois agentes da CIA, Chris (interpretado por Sam Rockwell) e Lee (o próprio John Malkovich), enviados pelo chefe MJ (interpretado por Steve Buscemi) à Ilha de Páscoa. Entre os enigmáticos moais, os dois terão de confrontar o passado e as conspirações do presente. O thriller político traz ainda no elenco nomes como Tom Waits e Parker Posey.
McDonagh descreveu as filmagens como uma experiência “extraordinária, inclusive em termos espirituais”. Logística árdua: toda a equipe e equipamentos tiveram de ser levados até a ilha, um esforço deliberado para devolver à tela a beleza singular daquele lugar e o respeito pela comunidade local. É um gesto de responsabilidade estética e ética — um pequeno manifesto sobre como o cinema pode ser um espelho do nosso tempo.
Steve Buscemi, entusiasmado, confessou que quase perseguiu o diretor para trabalhar com ele: “Eu amei fazer este filme. Quase ‘persegui’ o Martin para conseguir um papel; quando ele me ofereceu esse estranho chefe da CIA, fiquei radiante”. A anedota revela o lado colaborativo e quase faminto dos atores diante de um projeto que promete complexidade.
McDonagh também comentou a transformação do roteiro: “O filme nasceu como uma comédia, mas escrevendo ele virou algo mais profundo, explorando a culpa de um dos protagonistas”. Sua motivação veio da curiosidade sobre as ações da CIA no Chile da época — um tema pouco debatido — e hoje o realizador vê no filme uma reflexão geopoliticamente mais ampla, quase um reframe da história perante eventos contemporâneos, como a crise na Venezuela.
Malkovich acrescentou uma observação inquietante: “O que mais me assusta hoje é que nem sequer tentam esconder algumas operações. Nos anos 70 havia um verniz maior de ocultamento; agora parece que o processo é visível e isso é perturbador”. A fala ecoa como um lembrete de que o cinema, ao revisitar episódios passados, pode acender o debate sobre o presente — o roteiro oculto da história torna-se explícito, e cabe ao público interpretar suas reverberações.
No conjunto, Wild Horse Nine se instala como um trabalho que mistura o pulso do thriller com a densidade histórica, convidando à reflexão: a arte não apenas dramatiza eventos, mas os refrata, oferecendo ao espectador um espelho onde ver o tempo e suas sombras.

