La fiuma: Dario Franceschini revisita o pós-guerra italiano em romance sensível
La fiuma de Dario Franceschini revisita o pós‑guerra italiano entre memórias, política e o rio Pó — romance lançado pela La Nave di Teseo.
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La fiuma: Dario Franceschini revisita o pós-guerra italiano em romance sensível
Por Chiara Lombardi — Chega às livrarias no dia 6 de outubro, pela editora La Nave di Teseo na coleção Oceani, La fiuma, o novo romance de Dario Franceschini. É um livro que se propõe a ser mais do que um registro histórico: funciona como um espelho do nosso tempo, apontando o roteiro oculto da sociedade italiana do segundo pós‑guerra através das vidas simples e atravessadas das populações rurais da província de Ferrara.
Franceschini retoma a sua linguagem medida e límpida para desenhar uma crônica íntima dos grandes acontecimentos que marcaram a Itália entre 1946 e as décadas seguintes: o plebiscito entre República e Monarquia, a campanha eleitoral de 1948, o atentado contra Palmiro Togliatti, as façanhas esportivas de Gino Bartali, a tragédia da cheia do Polesine em 1951 e a devastadora enchente de Florença em 1966 com os famosos "anjos da lama".
No centro da narrativa, Franceschini coloca uma relação mãe‑filha que atravessa as transformações sociais dos anos 1950. Em cenas que lembram fotografias aéreas — metáforas visuais tão caras ao cinema neorrealista —, mãe e filha cruzam as estradas em uma Lambretta, enfrentando preconceitos e injustiças que delineiam o lugar da mulher naquele período. O rio, o grande protagonista simbólico do romance, é o rio Pó — chamado por ali de "La fiuma" porque, escreve o autor, "nas nossas terras ele é feminino" — e funciona como uma narrativa espelhada: suas margens escavam memórias, políticas e afetos.
O livro abre em um dos momentos mais decisivos da Itália do pós‑guerra: o dia do referendo que definia o futuro do país. Franceschini descreve a cena com olho de narrador documental e sensibilidade de cronista emocional: uma noiva que vai votar já trajada para o casamento, a mão que treme, a queda do lápis no momento de assinalar a cruz embaixo da palavra "Repubblica" — pequenos gestos que condensam a história coletiva.
Autora de uma escrita que privilegia a clareza e a cadência, Franceschini não abandona as suas inquietações literárias: recorda o amor impossível entre Tina e Lucia, já trazido em Aqua e Tera, e amplia o panorama com um fresco social que nos lembra quem fomos e de onde viemos. A prosa tem o ritmo de um filme em plano‑sequência, onde o detalhe íntimo encontra o acontecimento histórico e transforma lembrança em leito narrativo.
Autor premiado, Franceschini estreou na ficção com Nelle vene quell’acqua d’argento (2006), obra que lhe valeu, entre outros, o Premier Roman de Chambéry na França e os prêmios Opera Prima Città di Penne e Bacchelli na Itália. Seguiram‑se romances e coletâneas como La follia improvvisa di Ignazio Rando, Daccapo, Mestieri immateriali di Sebastiano Delgado e Disadorna. Em 2024 publicou Aqua e Tera, vencedor do Premio Maiella e finalista do Premio Biella. Seus títulos foram traduzidos para o francês pela Gallimard. Além da carreira literária, Franceschini foi por sete anos ministro da Cultura, percurso que colore sua obra com uma rara visão institucional e humana.
La fiuma chega como um convite à reflexão: não apenas sobre os eventos que moldaram a Itália do século XX, mas sobre como essas histórias ecoam no presente. É um romance que pede ser lido como um documento afetivo, um mapa de memórias onde o rio funciona como fio condutor — a semiótica do viral de uma nação que se reconstrói entre fúria, afeto e pequenas resistências cotidianas.

