Marcello Fois vence o 64º Premio Campiello: “Quanto mais lemos, mais civis seremos”
Marcello Fois vence o 64º Premio Campiello com 'L'immensa distrazione' e defende leitura, escola e a língua italiana como atos de civismo.
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Marcello Fois vence o 64º Premio Campiello: “Quanto mais lemos, mais civis seremos”
Por Chiara Lombardi — No eco cultural do Festival de Veneza, Marcello Fois voltou a lembrar que a literatura é mais do que entretenimento: é um mapa para entender o presente. O escritor natural de Nuoro conquistou a 64ª edição do Premio Campiello com o romance "L'immensa distrazione" (Einaudi), proclamado na noite de 3 de outubro no Palazzo del Cinema, no Lido di Venezia.
Ao aceitar o prêmio, Fois fez do título do seu romance uma lente para a condição do país: “Esta é a distração de um país que talvez não esteja suficientemente distraído para compreender que instruir-se e ler bem é um ato de civilidade”. A observação não soa como mero juízo moral, mas como um diagnóstico cultural — o roteiro oculto da sociedade que insiste em confundir complexidade com mera complicação.
Em um discurso que ressoou como um espelho do nosso tempo, o autor ligou a questão da leitura ao papel da escola e da formação. “Quanto mais lemos, mais seremos civis neste País, mais palavras teremos e menos seremos enganados pelas palavras alheias”, disse Fois, sublinhando que a experiência literária é antes de tudo uma experiência de ligação: capacidade de conectar ideias, memórias e contextos.
Fois mencionou uma lembrança poderosa com a Rita Levi-Montalcini, quando a Nobel da Medicina disse aos jovens: “Vocês estão muito informados, mas pouco formados”, e admoestou os pais: “Não aplaudam, porque vocês são a primeira geração de pais governada pelos seus filhos”. A anedota ganhou a dimensão de um diagnóstico: “A verdadeira mutação antropológica é que hoje só nascem gênios. Nós éramos os últimos tolos da geração passada”, apontou o escritor, com aquele tom que mistura ironia e pena.
Além de discurso sobre educação, Fois trouxe a memória e a língua como territórios essenciais. Ele reivindicou a exigência linguística em prêmios literários: em tempos de jargões globais, é preciso cuidado com a língua — uma língua bem cuidada é um instrumento de cidadania e resistência. Também houve espaço para uma homenagem íntima à sua ilha: Fois dedicou a vitória a três mulheres sardas que marcaram sua sensibilidade — Michela Murgia, a fotógrafa Daniela Zedda e a laureada com o Nobel de Literatura de 1926, Grazia Deledda.
O tom do autor, agora laureado, sugere um convite: ler não como passatempo, mas como um treino cívico. Em uma época de consumo acelerado de informação, a sua vitória no Premio Campiello funciona como um reframe da realidade — um lembrete de que a literatura liga, conecta e forma o tecido simbólico que nos permite compreender a complexidade do mundo.
Fois saiu do palco com a convicção de que investir em formação e em leitura é cultivar a própria democracia. É uma chamada para que a língua e a memória sejam guardadas como patrimônios vivos: este, talvez, seja o verdadeiro prêmio além do reconhecimento oficial — a capacidade de coesão social que nasce quando uma comunidade volta a aprender a ler o mundo.

