Marilyn Manson e o segundo ato: vendetta, redenção e pintura em One Assassination Under God – Chapter 2

Marilyn Manson lança One Assassination Under God – Chapter 2: vendetta, pintura e referências literárias em um álbum cinematográfico.

Marilyn Manson e o segundo ato: vendetta, redenção e pintura em One Assassination Under God – Chapter 2

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Marilyn Manson e o segundo ato: vendetta, redenção e pintura em One Assassination Under God – Chapter 2

Dois anos após o primeiro capítulo, Marilyn Manson retorna com um álbum que se apresenta como um filme sonoro: mais compacto, cinematográfico e atravessado por referências literárias e pictóricas. Lançado hoje pela Nuclear Blast, One Assassination Under God – Chapter 2 encerra sua narrativa com um longo spoken word em Enantiomorph: “Para quem estiver ouvindo… agora vocês sabem quem eu sou”. A declaração funciona como assinatura e como ato de sobrevivência artística.

Enquanto o primeiro disco marcou uma espécie de renascimento, este segundo capítulo assume o tom da vendetta, nas palavras do próprio artista. Em trechos de Enantiomorph Manson canta: “Não sou apenas um livro a ser lançado ao fogo. Fui lido, decorado e não tenho medo de queimar” — uma alusão clara à máxima de Mikhail Bulgakov, “os manuscritos não se queimam”, que converte o álbum numa metáfora de resistência contra a tentativa de apagamento.

Com nove faixas, o disco se move por coordenadas mais introspectivas e melancólicas do que o predecessor. Há ecos do passado do artista — instrumentos sombrios, camadas quase enevoadas, e uma dinâmica vocal que oscila entre o sussurro e o grito. A quietude crepuscular de várias faixas é rompida por surtos de agressividade, como em Front Toward Enemy, um dos momentos mais duros do trabalho.

A recepção do público tem sido efusiva: Manson já foi reencontrado ao vivo na Itália em três datas no último julho, exibindo boa forma física e vocal. A agenda segue: na próxima semana ele inicia uma turnê norte-americana ao lado de Rob Zombie, e em seguida retorna como headliner para uma série de shows outonais nos EUA, celebrando os 30 anos de Antichrist Superstar.

Na produção, Tyler Bates assina a mesa sonora do projeto, enquanto Tim Skold, colaborador histórico, voltou à formação ao vivo após a redução das atividades de Bates como performer. Essa combinação reafirma o caráter híbrido do projeto: parte disco, parte espetáculo performático.

Outro ponto que transforma o álbum em experiência expandida é a sua interlocução com a pintura. Para cada faixa, Manson produziu uma obra visual — reunidas num boxset de tiragem limitada e exibidas em um site dedicado aos dois capítulos. Ao clicar nas pinturas, o ouvinte encontra a voz do artista contando a gênese e o sentido de cada faixa: um mapa multimídia que converte som em imagem e narrativa em arquivo pessoal. É uma estratégia que aproxima o projeto do que podemos chamar de roteiro oculto da obra: cada pintura funciona como cena e cada canção como quadro.

Há também ecos de Carroll e Fellini espalhados pela iconografia e pela dramaturgia das canções, sugerindo que Manson segue interessado em ser mais do que performer — quer ser um espelho do nosso tempo, uma figura que reconta mitos modernos através de referências clássicas e do estranho. Em abertura como Unalive, o disco já estabelece seu clima: uma mise-en-scène sonora que mistura confessionário e proclamação.

Se a música popular é um espelho, One Assassination Under God – Chapter 2 se recusa a mostrar apenas reflexos confortáveis. Prefere provocar, remendar memórias e oferecer, entre sombras e pinceladas, a imagem de um artista que se recusa a desaparecer. É o segundo ato de uma história que se lê tanto nos discos quanto nas telas de pintura: vingança, sim — mas também a possibilidade de redenção que nasce da persistência.