Michele Bongiorno: contar histórias que não «vencem amanhã» entre cinema, arte e inteligência artificial

Michele Bongiorno fala sobre contar histórias duradouras, seu docufilm sobre Lucio Fontana e a curiosidade cautelosa sobre a inteligência artificial.

Michele Bongiorno: contar histórias que não «vencem amanhã» entre cinema, arte e inteligência artificial

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Michele Bongiorno: contar histórias que não «vencem amanhã» entre cinema, arte e inteligência artificial

Por Chiara Lombardi — Do marketing ao set, o percurso de Michele Bongiorno desenha um mapa contemporâneo entre a indústria cultural e a urgência tecnológica. Em entrevista, o produtor resume a sua bússola criativa numa frase que funciona como manifesto: «Gosto de contar histórias que não expiram amanhã». Essa afirmação atravessa o fio condutor do seu trabalho — e explica por que projetos com profundidade histórica e artística, como o recente docufilm sobre Lucio Fontana, ocupam o centro das suas escolhas.

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Com passagem por estratégias de marca e campanhas, Bongiorno traz ao cinema a sensibilidade do marketing: entender o público sem reduzir a língua narrativa a fórmulas. Mas, ao contrário de um produtor movido apenas por tendências efémeras, ele procura o terreno firme da memória cultural. O resultado é um repertório que alia formato audiovisual e pesquisa, tentando transformar o documentário num «espelho do nosso tempo» que resiste à obsolescência rápida.

Sobre o projeto dedicado a Lucio Fontana, figura-chave da arte do pós-guerra conhecido pelos cortes nas telas, Bongiorno vê o doc como mais que uma biografia: é uma tentativa de mapear o impacto estético de Fontana na percepção contemporânea da obra. «Quero que o público reconheça o gesto artístico não só como espetáculo visual, mas como um roteiro oculto da sociedade», diz o produtor. A obra, nas intenções dele, pretende costurar arquivo, depoimentos e reflexão crítica para colocar o artista no contexto europeu e global — um reframe que relembra como determinados gestos artísticos reverberam décadas depois.

Num tempo em que a velocidade de consumo dita programas editoriais e lançamentos, Bongiorno confessa outra inquietação central: a chegada e o uso da inteligência artificial na cadeia criativa. «Sou curioso de ver onde a Inteligência Artificial nos levará, mas ao mesmo tempo tento não me deixar devorar pela pressa», afirmou. A frase sintetiza um dilema recorrente: como integrar ferramentas disruptivas sem abdicar do tempo necessário à reflexão e à construção de sentido?

Essa tensão — entre novidade tecnológica e tempo de maturação estética — orienta não só escolhas de produção como também alianças artísticas. Bongiorno procura projetos que dialoguem com a tradição europeia e, ao mesmo tempo, reajam às urgências do presente: memórias culturais que informam identidades, narrativas que ultrapassam o ciclo rápido do consumo digital. É uma postura que, nas palavras da entrevista, privilegia a «durabilidade» sobre a efemeridade.

Enquanto marketplace e algoritmos reconfiguram hábitos de atenção, o trabalho de produtores como Michele Bongiorno lembra que o audiovisual pode ser um dispositivo de conservação simbólica. Em vez de disputar apenas a atenção imediata, a aposta é em obras que atuem como arquivos vivos — peças que resistam ao calendário implacável do agora. Assim, o doc sobre Fontana surge como exemplo de uma prática que vê o cinema e o documentário como instrumentos de tradução cultural.

No fim, a reflexão de Bongiorno é também um convite: olhar para além do brilho momentâneo e pensar o conteúdo como um legado. Em tempos de aceleração, o produtor reivindica lentidão inteligente e curadoria afetiva — valores que, segundo ele, são a verdadeira resistência contra a obsolescência programada. É essa ética que pretende guiar seus próximos passos, olhando para o futuro sem abandonar a paciência do artesão.

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