Nanni Moretti interrompe sessão em Veneza: “Apague o celular” e retorna ao centro do debate
Nanni Moretti interrompe sessão em Veneza para pedir que espectador desligue o celular; gesto virou declaração no festival e rendeu aplausos.
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Nanni Moretti interrompe sessão em Veneza: “Apague o celular” e retorna ao centro do debate
Por Chiara Lombardi — No silêncio quase litúrgico da Sala Grande do Palazzo del Cinema no Lido de Veneza, três palavras rasgaram a penumbra: "Spenga il telefono" — "Apague o celular". Foi o próprio Nanni Moretti, diretor e ator, quem desceu da sua poltrona e foi, em mangas de camisa, interromper a projeção de Succederà questa notte para exigir que um espectador desligasse o aparelho que brilhava na audiência.
O episódio aconteceu poucas cenas após o início da exibição, quando os créditos iniciais, embalados pela trilha de Alberto Iglesias, já deslizavam na tela. Moretti, que voltava ao concurso da Mostra do Cinema após 37 anos, inicialmente hesitou — "estávamos só no começo", contou com ironia no dia seguinte —, mas ao perceber que o telefone permaneceu ativo durante os diálogos, tomou a iniciativa: deixou a galeria, percorreu o corredor à direita e pediu diretamente que o espectador o desligasse. Em seguida, retornou ao seu lugar e a projeção prosseguiu.
A cena surpreendeu o público e as equipes de sala, as chamadas "maschere" responsáveis pela vigilância do comportamento da plateia. Entre os presentes na mesma fila de Moretti estava Pietrangelo Buttafuoco, presidente da Bienal de Veneza, que testemunhou a intervenção. O relato foi compartilhado pelo próprio diretor na cerimônia de entrega do Prêmio SIAE Andrea Purgatori à sua carreira, realizada na Sala Perla do Palazzo del Casinò, quando, instigado por Francesco Martinotti, presidente das Giornate degli Autori, reconstituiu o episódio com bom humor e recebeu uma ovação.
Receber o prêmio também foi momento de memória: a placa que Moretti ganhou reproduz o depósito de Ecce Bombo (5 de setembro de 1977). A SIAE havia procurado inicialmente o depósito de Io sono un autarchico, seu primeiro longa, sem sucesso. "Era feito um pouco em família, em Super 8", lembrou o diretor, evocando a intimidade e o ritmo de uma geração de cineastas e personagens que atravessam sua obra.
Mais do que um incidente de cortesia, a interrupção funciona como um pequeno espelho do nosso tempo: a luz azul de um dispositivo que não se cala durante uma projeção coletiva revela o conflito entre atenção concentrada e cultura da distração. Numa sala de cinema, o silêncio e a imersão são parte do espetáculo; a ação de Moretti foi, ao mesmo tempo, um gesto autoral — reivindicando o rito da exibição — e uma cena performativa que diz muito sobre a relação contemporânea do público com a experiência cultural.
Como crítica cultural e observadora do zeitgeist, vejo nesse momento o encontro entre o roteiro público do festival e uma ética comunitária de fruição: Moretti não apenas protegeu sua obra, mas recordou que o cinema continua sendo um cenário de transformação onde memória, atenção e respeito coletivo se confrontam. Aplaudido na Sala Perla, o diretor transformou uma pequena interrupção numa declaração de princípios — uma pausa que reconfigura a narrativa coletiva.

