Da memória íntima de Myrta Merlino ao retrato contemporâneo de Maquiavel por Corrado e Natalia Augias: novidades em livraria
Novidades em livraria: Myrta Merlino e o retrato íntimo da mãe; Corrado e Natalia Augias revisitam Maquiavel à luz do presente.
RESUMO ✦
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Da memória íntima de Myrta Merlino ao retrato contemporâneo de Maquiavel por Corrado e Natalia Augias: novidades em livraria
Apresento, como quem folheia lançamentos numa manhã chuvosa em um café de Milão, uma seleção de obras que chegam agora às prateleiras e que merecem ser lidas com atenção crítica. Entre memórias familiares e um ensaio político-histórico, esses livros funcionam como um espelho do nosso tempo, refletindo dinâmicas pessoais e públicas que continuam a moldar identidades e cenários de poder.
Na editora La Nave di Teseo, desembarca La bambina del miracolo. Storia della mia mamma geniale, a nova narrativa da jornalista Myrta Merlino. Trata-se de um retrato íntimo e corrosivo de Annamaria Palermo, mãe da autora: uma mulher que atravessa as décadas com a força inquieta de quem não se conforma. Merlino descreve cenas que vão das governantas inglesas e romances de formação à explosão do Sessantotto, passando pelas férias em Positano, a universidade, a maternidade e a paixão pela China — um território de desejo e descoberta que a mãe estuda e revela antes dos outros.
A narrativa da autora revela a rotina da ausência — telefonemas intercontinentais aguardados com ansiedade — e a ambivalência de uma figura materna que é ao mesmo tempo heroica e terrível. Merlino lembra a vivacidade dos anos em Nova York, o brilho do Studio 54 e o desejo de viver todas as emoções sem freio: um retrato de época que é também manifesto sobre liberdade pessoal, feminilidade e as contradições do amor. Este livro é, acima de tudo, a história de Annamaria Palermo: uma mulher do século passado e, paradoxalmente, sem tempo, uma eterna jovem, intelectual e subversiva — a chamada mamma geniale.
Já pela Einaudi, chega L’uomo che inventò la politica. Inchiesta su Machiavelli, assinado por Natalia e Corrado Augias. Nesta investigação-síntese, a dupla se propõe a desmontar séculos de retórica escolar, caricaturas e interpretações distorcidas sobre Nicolau Maquiavel. A leitura recupera um Maquiavel antipapal, banido e colocado no Índex, simultaneamente antimperial e antifeudal, cuja modernidade surpreende por sua atualidade.
Os Augias leem o Florentino não apenas como teórico do poder, mas também como um autor irônico e humano — figura qualificada por Francesco De Sanctis como até simpática. Reposicionar Maquiavel hoje equivale a colocar diante do nosso próprio espelho as vicissitudes do poder: as regras da convivência civil, os vícios do governar e o caos do século XVI que, por eco cultural, nos responde. Do pós-guerra às crises recentes na Ucrânia e no Medio Oriente, o livro levanta questões sobre a crise do direito internacional, a fragilidade da União Europeia e o retorno das lógicas de força.
Essas duas leituras, lado a lado nas prateleiras, compõem um curioso diálogo: a micro-história da intimidade e a macro-história do poder se refletem mutuamente, como cenas distintas de um mesmo roteiro oculto. Ler Merlino e os Augias é, portanto, uma oportunidade para entender como memórias pessoais e conceitos políticos se entrelaçam no cenário de transformação em que vivemos.
Convido o leitor a abrir esses livros com a curiosidade sofisticada de quem busca não apenas entretenimento, mas ferramentas para decifrar o presente.

