Riz Ahmed em 'Digger' de Iñárritu: o espelho sombrio que diz — o desastre somos nós
Riz Ahmed comenta 'Digger' de Iñárritu: sátira sobre poder, desinformação e responsabilidade. Tom Cruise irreconhecível como magnata do petróleo.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Riz Ahmed em 'Digger' de Iñárritu: o espelho sombrio que diz — o desastre somos nós
Riz Ahmed sintetiza com uma frase contundente o cerne de Digger: “o desastre somos nós”. Lançado hoje nos cinemas pela Warner Bros., o novo filme de Alejandro Gonzalez Iñárritu chega como uma fábula feroz — uma sátira que mistura drama, comédia e loucura para dissecar o poder, a ganância e a manipulação da informação.
No centro dessa fábula está Digger Rockwell, encarnado por um Tom Cruise irreconhecível: barriga saliente, totalmente careca e distante do heroísmo que costuma associar-se ao astro. Rockwell é um magnata do petróleo, grotesco e megalomaníaco, ao mesmo tempo filosófico e demoníaco. Quando uma plataforma petrolífera na Groenlândia provoca uma fratura que desencadeia uma catástrofe ecológica — culminando na separação de um iceberg com destino à Europa — o homem mais poderoso do mundo enfrenta a missão impossível de convencer o planeta de que ainda é seu salvador, embora seja a causa da destruição.
Convocado para um encontro de emergência pelo presidente dos Estados Unidos, vivido por John Goodman, Digger deve se defender diante de um conselho repleto de políticos, cientistas, militares e industriais. No elenco também estão Michael Stuhlbarg, como vice-presidente, e Riz Ahmed, que interpreta o dr. Ganesh, conselheiro fiel do presidente.
Para Riz Ahmed, Digger não é apenas um filme sobre um colapso ambiental: é sobretudo uma reflexão sobre a incapacidade humana. “O filme fala sim de um desastre, mas de um desastre gerado pela nossa própria absurdidade — pelo desejo de poder e riqueza a qualquer preço e pela irresponsabilidade com que perseguimos esses objetivos”, afirma Ahmed. A força do filme, ele acrescenta, está em retratar tragédias profundas sem abrir mão da ironia: há algo intensamente dramático, mas também surpreendentemente cômico, nesse mosaico de contradições humanas.
Michael Stuhlbarg ecoa essa leitura, apontando a responsabilidade pessoal como um dos eixos do relato: “Somos responsáveis por nossas ações. A ganância e a busca por conforto podem corroer algo dentro de nós”. E é exatamente aí que Digger ganha uma tonalidade inquietante: a linha entre o protagonista e a nossa realidade contemporânea torna-se tênue — um espelho do nosso tempo onde o roteiro oculto da sociedade aparece em cena.
Outro tema central do filme é a relação entre verdade e narrativa. Em uma era marcada pela desinformação e pelas realidades paralelas, é tentador refugiar-se em versões alternativas dos fatos. Ahmed observa como, frequentemente, a verdade dá lugar a construções convenientes que protegem interesses e egos. Digger funciona, assim, como um refrão crítico sobre como a mídia, os poderosos e a indústria moldam a percepção coletiva — a semiótica do viral aplicada ao colapso.
Esteticamente, Iñárritu entrega um trabalho que não disfarça suas ambições: a sátira política se mistura a uma fábula contemporânea capaz de causar desconforto e risos na mesma sequência. Para o público, o filme promete ser menos um espetáculo de efeitos e mais um espelho cortante, convidando-nos a ver o que preferimos negar. Como observadora do zeitgeist, gosto de pensar que Digger é menos sobre um iceberg a caminho da costa europeia e mais sobre o iceberg que carregamos dentro — lentas rachaduras do nosso próprio projeto civilizatório.
Em suma, Digger não pretende oferecer respostas fáceis. É um convite provocativo para enfrentar a pergunta que o cinema contemporâneo faz ao público: até que ponto somos cúmplices do desastre que anunciamos? Em cena, entre o grotesco e o filosófico, Iñárritu monta um painel mordaz onde o entretenimento se transforma em reflexão; e, como toda boa arte, nos deixa desconfortavelmente mais conscientes.

