Samanta Schweblin vence o Premio Malaparte: a escritora de contos aceita o prêmio em Capri
Samanta Schweblin recebe o Premio Malaparte em Capri; a autora argentina de contos será premiada por sua obra marcada por inquietude e fragilidade humana.
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Samanta Schweblin vence o Premio Malaparte: a escritora de contos aceita o prêmio em Capri
Por Chiara Lombardi — Em uma decisão que reconfigura levemente o mapa do reconhecimento literário em Capri, o Premio Malaparte, tradicionalmente outorgado a romancistas, foi atribuído este ano à Samanta Schweblin, a autora argentina hoje radicada em Berlim e celebrada sobretudo por suas histórias curtas. É, de certa forma, uma primeira: a vitória de uma voz de contos num prêmio que por anos privilegiou o romance como medida canônica.
O nome da premiada foi anunciado pela curadora do prêmio, Gabriella Buontempo, junto à íntegra do júri — Leonardo Colombati, Giordano Bruno Guerri, Giuseppe Merlino, Silvio Perrella, Emanuele Trevi e Marina Valensise —, que reconheceu na obra de Schweblin um trabalho consistente em sintonia com um clima de inquietação persistente. O evento, apoiado por Regione Campania, Fondazione Ferrarelle ETS e Ferrarelle Società Benefit, ocorrerá em Capri no primeiro fim de semana de outubro, entre sábado 3 e domingo 4.
O conjunto recente da autora inclui Il buon male, publicado na Itália pela Einaudi, quarta coletânea de contos de uma trajetória que conta também com dois romances. Como a própria Schweblin afirmou em entrevista, a origem argentina traz uma tradição de mestres do conto — Borges, Cortázar, Silvina Ocampo — e essa linhagem se reflete em sua economia narrativa: "Escrevo também romances, mas porque não fui suficientemente hábil e precisei de 250 páginas para algo que poderia ter contado em 20", disse ela, com a ironia fina de quem sabe mover-se entre o conciso e o expansivo.
Mais do que a forma, foi o repertório temático que convenceu a banca: um constante fluxo de medos, ansiedades e fraturas psicológicas que mantêm o leitor num estado de perturbação calculada. As histórias de Schweblin exploram incompreensões, desajustes e, por vezes, encruzilhadas extremas como o suicídio — uma cartografia das fragilidades humanas que prefere evocar o desconforto em vez de oferecê-lo em explicações fáceis. É um espelho do nosso tempo, um roteiro oculto da sociedade que traduz o mal-estar contemporâneo em imagens e focos narrativos.
Em Capri, a escritora cumprirá a programação tradicional: no sábado à tarde (3 de outubro), após o almoço reservado à imprensa, ela participou de um encontro público com os integrantes do júri; a cerimônia oficial de premiação será no domingo, 4 de outubro, às 11h, na Certosa di San Giacomo, quando Giuseppe Merlino lerá as motivações e Schweblin fará seu discurso de aceitação.
Este é também um marco linguístico: Samanta Schweblin é a segunda vencedora consecutiva que escreve em espanhol, na esteira de Fernando Aramburu, premiado em 2025. Antes deles, o prêmio havia sido concedido predominantemente a autores de língua inglesa — entre eles os americanos Richard Ford, Daniel Mendelsohn e Elizabeth Strout —, o que evidencia uma alternância interessante entre tradições narrativas distintas.
Como observadora cultural, não posso deixar de ver neste gesto do Premio Malaparte mais do que uma simples escolha estética: trata-se de um reframe simbólico, uma pequena mas significativa reorientação do reconhecimento literário, que converte a economia do conto em pleno protagonismo público. Schweblin não só recebe um troféu; traz consigo uma poética do incômodo que reflete, em chave sutil e perturbadora, os contornos de nosso presente.

