Silvia Salemi e o silêncio que virou voz: “Após a morte da minha irmã Laura não falei por 5 anos”
Silvia Salemi revela que não falou por cinco anos após a morte da irmã Laura e conta como reencontrou sua voz através de uma fita cassete.
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Silvia Salemi e o silêncio que virou voz: “Após a morte da minha irmã Laura não falei por 5 anos”
Por Chiara Lombardi — No episódio de hoje de La volta buona, com a condução de Caterina Balivo, a cantora e compositora Silvia Salemi abriu um capítulo íntimo da sua biografia que funciona como um espelho do nosso tempo: o luto infantil e a busca solitária por uma linguagem para sobreviver à perda. Em uma fala direta e comovente, Salemi afirmou: "Depois da morte da minha irmã Laura não falei por 5 anos".
Descrever aquele período como um simples momento de tristeza seria reduzir um roteiro emocional mais complexo. A artista qualificou o episódio como "um dor indefinível" — uma ferida que não se fecha, que se reorganiza no cotidiano e na memória, oferecendo, com o passar dos anos, novos significados. "Essas coisas não se superam nunca, depois se continua a viver e se pode encontrar força e ensinamento", disse ela, traçando um arco que vai do colapso ao reaprendizado.
Salemi revelou que, ainda criança, tentou encontrar um remédio por conta própria. "Acredito que o meu passo seguinte foi o de me curar sozinha. Eu era muito pequena", contou. Essa tentativa de cura solo lembra o ato do artista que trabalha nos bastidores da própria alma: um cinema íntimo onde cenas de dor e conforto se sobrepõem até que se desenhe uma nova narrativa.
A virada simbólica e literal ocorreu aos cinco anos, quando a cantora encontrou uma fita cassete antiga. Nela, ouviu a voz de Laura interagindo com a sua — um registro que, paradoxalmente, trouxe clareza. "Eu encontro uma cassete onde escuto a voz da Laura que interage comigo. Percebi que tinha uma voz", relatou. É um momento de reencenação afectiva: a voz perdida, recuperada através do eco mecânico da gravação, devolve à criança a capacidade de nomear o mundo.
Enquanto observadora do zeitgeist, é impossível não notar que histórias como a de Salemi reconfiguram nossa compreensão pública sobre luto, trauma e criação artística. O silêncio que se impõe após uma perda não é apenas ausência de som — é um capítulo do roteiro oculto da sociedade sobre como lidamos com memórias e com o que consideramos irreparável. Na trajetória de Salemi, a música e a própria voz surgem como ferramentas de reframe: transformar dor em expressão, isolamento em partilha.
Ao compartilhar essa lembrança no programa, Silvia Salemi não só revisita a própria história, mas convida o público a pensar sobre a complexidade do luto infantil e a resiliência das palavras. É um convite a ouvir com atenção o eco cultural que nos molda — e a reconhecer que, muitas vezes, a arte nasce do afeto e da ausência, da fita cassete que guarda conversas e do silêncio que, um dia, decide falar novamente.
Mais que uma confissão, a fala de Salemi é uma pequena lição: a voz pode ser redescoberta, mesmo quando o mundo apaga os contornos. E, nesse reencontro, há sempre um aprendizado que reverbera para além da biografia pessoal, alcançando o roteiro coletivo de como vivemos e lembramos.

