Pordenonelegge 27ª edição: festival ergue a bandeira da liberdade com Salman Rushdie e 694 vozes
Pordenonelegge 27ª edição celebra a liberdade com Salman Rushdie, 447 eventos e 694 vozes em defesa da palavra e do dissenso.
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Pordenonelegge 27ª edição: festival ergue a bandeira da liberdade com Salman Rushdie e 694 vozes
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece saída de um roteiro que observa o tempo, amanhã começa a 27ª edição do Pordenonelegge, a Festa do Livro e da Liberdade. O festival abre suas cortinas com uma afirmação clara: a leitura é um presídio democrático e o encontro público, um espelho do nosso tempo onde se lê o estado das coisas.
São anunciados 447 eventos distribuídos em 52 espaços de Pordenone e território, com a presença de 694 vozes vindas de todo o mundo — um coro heterogêneo que vai de Michel Houellebecq a Peter Sloterdijk, do vencedor Eshkol Nevo ao norte-americano Prêmio Pulitzer Andrew Sean Greer, até nomes como Leïla Slimani, Thomas Schlesser, Vera Politkovskaja e Nelio Biedermann, entre tantos autores e autoras italianos e estrangeiros.
O presidente da Fundação Pordenonelegge.it, Michelangelo Agrusti, escolheu a imagem do taraxaco — o dente-de-leão — como emblema desta edição: uma planta espontânea que atravessa fissuras de concreto e espalha sementes. É uma metáfora que funciona como lente: pequena, resistente, profundamente democrática. Agrusti lembra, numa frase que reverbera como um alerta histórico, que "Nada é para sempre, muito menos as democracias". Em um mundo marcado por conflitos internacionais e por recentes derivações autoritárias, o festival reafirma a urgência de defender a independência da palavra escrita.
O palco inaugural, no Teatro Verdi de Pordenone, recebe o escritor e ensaísta Salman Rushdie, ícone global da resistência intelectual. Em diálogo com o editorialista Federico Rampini, Rushdie abre a conversa sob o fio condutor "Linguagens da Verdade", posicionando-se como testemunho vivo das batalhas contra a censura e o fanatismo. A presença dele dá tom à programação de cinco dias, que se encerra no domingo com a intervenção do Presidente da República Italiana, Sergio Mattarella — e que impulsiona Pordenone e o Friuli Venezia Giulia rumo ao título de Pordenone Capital Italiana da Cultura 2027.
Entre as novidades desta edição está a Dissensio Arena, um espaço concebido para acolher autores, intelectuais e exilados vindos de contextos onde a voz tem preço. Do Afeganistão ao Irã, da China à Rússia, a arena é um microcosmo do debate global: ali se discutirá a liberdade de expressão e se darão corpo a narrativas de resistência, muitas vezes contadas por mulheres que sofreram perseguição com particular severidade.
A inauguração pública na Praça XX Settembre será também simbólica: às 18h30 haverá o primeiro içar oficial do estandarte do festival, tingido do amarelo icônico do Pordenonelegge. É um gesto curatorial que transforma vigilância em festa — o roteiro oculto da sociedade que se revela quando leitores, autores e cidadãos se encontram para defender a palavra.
Mais do que uma sucessão de eventos, esta edição se propõe como um observatório crítico. Em tempos de silêncios forçados e de recrudescimento autoritário, a festa do livro é um dispositivo que convida a escutar vozes dissidentes e a refletir sobre o papel público da literatura: não como escapismo, mas como um reframe da realidade.
Informações práticas: a programação completa, com horários e locais, está disponível no site oficial do festival. Para quem busca entender o eco cultural contemporâneo, Pordenonelegge oferece um mapa de debate onde a liberdade da palavra se mostra, cada vez mais, essencial.

