Venezia 83: Luigi Lo Cascio em 'Il Mestiere' — o artífice que 'arruma' os mortos e desafia o poder

Luigi Lo Cascio em 'Il Mestiere': um artífice que 'arruma os mortos' e transforma sobrevivência em revolta, apresentado em Venezia 83.

Venezia 83: Luigi Lo Cascio em 'Il Mestiere' — o artífice que 'arruma' os mortos e desafia o poder

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Venezia 83: Luigi Lo Cascio em 'Il Mestiere' — o artífice que 'arruma' os mortos e desafia o poder

Por Chiara Lombardi — Em uma apresentação marcada na seção Giornate degli Autori da Mostra de Veneza, Luigi Lo Cascio e o diretor Beppe Tufarulo trouxeram ao público Il Mestiere, filme que se anuncia como um espelho do nosso tempo: uma fábula crua sobre abandono institucional e a arrancada de dignidade que nasce na margem.

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No centro da narrativa está Sauro Cantafame, apelidado 'o técnico', personagem interpretado por Lo Cascio. Em sua Apecar, ele percorre um Sul indefinido — um território narrativo que funciona como cenário simbólico de uma cidadania privada dos seus direitos. A missão de Sauro é tão perturbadora quanto ritualizada: inserir corações mecânicos em idosos já mortos, devolvendo às famílias a ilusão de vida o suficiente para que continuem a receber pensões. É, nas palavras do próprio filme, o ofício de "arrumar os mortos".

Beppe Tufarulo, em sua estreia na direção, descreve o protagonista como um verdadeiro artesão: não apenas pela habilidade técnica, mas pelo modo ritual, pelo respeito e pela atenção que imprime ao trabalho. Essa precisão técnica é também uma metáfora — o cinema como ofício que costura o real com a ficção para revelar uma falha social.

A vida solitária de Sauro muda com o encontro do jovem Giocondo Infelice, interpretado por Riccardo Maiello. O nome do personagem já carrega um destino inscrito: uma infância quebrada, uma fragilidade que pede refúgio. Ao acolhê-lo, Sauro se coloca contra Vito 'a scimmia', figura do poder local que tutela e explora a comunidade. Assim nasce uma relação paternal e didática: Sauro ensina seu estranho ofício ao rapaz, transmite não só técnica, mas uma ética agreste e um desencanto cheio de cuidado.

O filme constrói uma progressão temática clara. Inicialmente, o gesto aparece como uma pequena trapaça — um mecanismo de sobrevivência em um Sul esquecido pelo Estado. Como afirma Lo Cascio, o trabalho de Sauro atua como um amortecedor social num contexto onde a sociedade se encontra "sob scacco". No entanto, essa fraude cresce em significado: transforma-se numa recusa, numa forma de rebelião contra um poder que cancela o futuro das pessoas.

É esse reframe — da pequena trapaça à insurreição moral — que Tufarulo explora com delicadeza. O filme se apresenta como denúncia explícita da ausência do Estado em certas regiões, ao mesmo tempo em que propõe uma possibilidade de reação. A virada decisiva vem pela proteção do jovem: Sauro, impulsionado por demônios e memórias, escolhe enfrentar Vito em nome de um projeto de futuro para Giocondo.

Como analista cultural, vejo em Il Mestiere mais do que uma narrativa sobre crime e punição: há aqui a semiótica de um território, a construção de um rito para manter vivos os fios da dignidade. O filme nos convida a pensar o que significa construir esperança quando as instituições falham — e como o gesto artesanal pode se transformar em gesto político. Em Veneza, essa obra soa como um capítulo importante do cinema que entende o entretenimento como um roteiro oculto da sociedade.

Ficha básica: Il Mestiere, direção de Beppe Tufarulo, protagonizado por Luigi Lo Cascio, com Riccardo Maiello. Apresentado nas Giornate degli Autori, Mostra de Veneza (Venezia 83).

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