Nanni Moretti retorna a Veneza com 'Succederà questa notte': um romance potente além da política
Nanni Moretti retorna a Veneza com 'Succederà questa notte', um romance potente inspirado em Eshkol Nevo. Estreia nos cinemas em 3 de dezembro.
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Nanni Moretti retorna a Veneza com 'Succederà questa notte': um romance potente além da política
Por Chiara Lombardi — Depois de 37 anos, Nanni Moretti voltou ao Lido com a mesma presença serena de sempre, mas com um roteiro que troca o tom político por uma delicada investigação dos afetos. A apresentação de Succederà questa notte na 83ª edição da Mostra de Veneza foi recebida com uma longa ovação: não apenas por rever um autor culto, mas por perceber que seu cinema segue sendo um espelho do nosso tempo, agora refletindo os contornos íntimos do amor.
Na coletiva, Moretti explicou que, ao contrário do que muitos imaginaram ao longo das décadas, sua relação com o festival nunca foi conflituosa. "Não é vero che io ce l'avessi con Venezia", afirmou, esclarecendo que a razão de suas ausências era prática e não política: seus filmes, até então, raramente ficavam prontos no verão. Desta vez, ao filmar no outono, surgiu naturalmente a proposta para o Lido.
O cineasta lembrou ainda uma antiga crença — "Vorrei fare sempre lo stesso film, possibilmente sempre più bello" — que com o tempo se desfez. Hoje, Nanni Moretti diz não querer repetir-se e, com o auxílio de Valia Santella e Federica Pontremoli, assinou um roteiro que privilegia o afeto: "é um filme sobre os sentimentos e sobre a necessidade de nomeá-los: deixar que se manifestem, admitir sem reservas que nos queremos, dizer sem pudor que nos amamos".
Succederà questa notte, coproduzido por Fandango, Sacher Film e Rai Cinema, chega aos cinemas em 3 de dezembro pela 01 Distribution. Livremente inspirado na coletânea de contos Legàmi do israelense Eshkol Nevo, o filme reúne no elenco nomes como Louis Garrel, Jasmine Trinca, Hippolyte Girardot, Angela Finocchiaro, Melina Akerman, Elena Lietti, Andrea Lattanzi, Antonio De Matteo e o próprio Moretti.
A presença de Jasmine Trinca no elenco tem um tom de continuidade afetiva e profissional: Moretti recordou que a conheceu quando ela ainda estudava no Liceo Virgilio, durante um primeiro contato usado para observar jovens, não para entrevistá-los. "Daquela distância, Jasmine tinha algo que já capturava", disse. Mais tarde, ambos trabalharam em Il Caimano e em Il sol dell'avvenire, traçando um percurso conjunto que aqui se reconecta.
O que torna este retorno particularmente interessante é o deslocamento temático. Se em muitas de suas obras anteriores o cenário político funcionava como matriz, em Succederà questa notte Moretti entrega-se ao que chamo de "reframe da realidade": o coração do filme é a linguagem dos afetos e a urgência de nomeá-los. É como se o diretor trocasse o palco do debate público pelo close íntimo, preservando, porém, sua habitual lucidez crítica — aquele olhar que transforma o particular em comentário cultural.
Ao sair da sala de imprensa, fica a sensação de que Moretti continua a dirigir a atenção do espectador para aquilo que muitas vezes escondemos: os laços, os silêncios e as declarações de amor que compõem a tessitura das nossas vidas. Em tempos de polarizações e ruídos, escolher contar uma história de amor potente é também um gesto político — ou, se preferirmos, um pequeno roteiro de resistência sentimental.
Em resumo: Nanni Moretti retorna a Veneza com um filme que soa como um convite — a nomear, a sentir e a reconhecer o impacto íntimo do que nos faz humanos.

