Venezia 83: Renzo Rosso e o documentário que desafia regras usando inteligência artificial

Em Venezia 83, 'Be Brave' retrata Renzo Rosso usando inteligência artificial como escolha estética e conceitual. Um manifesto sobre ousadia e reescrita criativa.

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Venezia 83: Renzo Rosso e o documentário que desafia regras usando inteligência artificial

Fora de competição na seção Venice Open, Be Brave, dirigido por Francesco Carrozzini, propõe um retrato pouco ortodoxo de Renzo Rosso, fundador de Diesel e do grupo OTB. Produzido pela Our Films (Mediawan) com Lorenzo Mieli, Mario Gianani e Gabriele Immirzi, o filme se destaca em Venezia 83 como uma das experiências formais mais ousadas do festival: um documentário que incorpora extensivamente a inteligência artificial generativa não apenas como ferramenta, mas como matéria prima estética e narrativa.

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Ao contar a trajetória de um dos empresários italianos mais reconhecíveis no cenário da moda global, Be Brave evita o biopic convencional. Em vez de seguir a linha documental tradicional — arquivamentos lineares, voz-off autoritativa, cronologia previsível — Carrozzini opta por um reframe: usa algoritmos que moldam imagens, compõem camadas visuais e entram no processo criativo como interlocutores do próprio sujeito retratado. A tecnologia, nesse projeto, deixa de ser um instrumento neutro para se tornar um personagem do filme, questionando o papel do autor e o estatuto da memória audiovisual numa era de reprodutibilidade radical.

O centro da narrativa é a figura de Renzo Rosso, que, desde 1978 com a fundação da Diesel e em 2002 com a criação do grupo OTB (Only The Brave), desenhou um percurso empresarial marcado por um constante movimento de ruptura. O grupo OTB hoje abriga marcas como Diesel, Jil Sander, Maison Margiela, Marni e Viktor&Rolf, além das empresas Staff International e Brave Kid, e participação no americano Amiri. Mas o filme não se ocupa apenas do sucesso comercial: preocupa-se em mapear a ética do risco que alimentou essa trajetória.

O ponto de partida simbólico escolhido por Carrozzini remete a 1996, quando a Diesel desembarcou oficialmente nos Estados Unidos, abrindo loja em Lexington Avenue, Nova York — uma jogada que é quase um ato performático: entrar no território do grande rival, a Levi's, para transformá-lo. A cena funciona como metáfora do impulso de Rosso: não adaptar-se às regras, mas subvertê-las. A partir daí, o documentário tece um itinerário composto por entrevistas com amigos, colaboradores, artistas e criativos que cruzaram o caminho do empresário. Desses relatos surge um traço comum: a sensação de terem sido instigados a se expressar, a experimentar, a transgredir limites — o ethos do “ser criativo” entendido como uma prática de liberdade.

O título Be Brave resume uma exigência ética e estética transmitida por Renzo Rosso às novas gerações: ousar, não temer, desobedecer às convenções. Essa mensagem se espelha na própria forma do filme, que adopta a inteligência artificial como uma provocação ao documento tradicional. É como se o documentário, ao se deixar atravessar por algoritmos, refletisse o roteiro oculto de uma sociedade que negocia hoje autoria, autenticidade e memória.

Enquanto o público debate os limites éticos da automação criativa, Be Brave surge como um espelho do nosso tempo: questiona quem escreve a história quando a imagem pode ser recriada por máquinas, e desafia-nos a pensar a criatividade como uma aliança entre imaginação humana e potência técnica. No fundo, o filme não é só sobre um empresário do denim — é um estudo sobre como a coragem criativa pode reinventar práticas, marcas e narrativas num mundo em que as regras da produção audiovisual estão em transformação.

Como observadora do zeitgeist, vejo em Be Brave uma semiótica do viral e um convite a olhar além da superfície: se a moda sempre foi um espelho do que somos, agora também precisa encarar o espelho das máquinas. E a lição de Renzo Rosso — de ousar e desobedecer — soa, nesse contexto, como um manifesto para criadores que desejam remodelar o futuro sem perder de vista a responsabilidade estética e cultural dessa ruptura.

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