ANAC aponta explosão de contratações diretas em 2025 e alerta para riscos de desperdício e corrupção

Relatório da ANAC revela explosão de contratações diretas em 2025 e alerta para desperdício, corrupção e necessidade de proteger denunciantes.

ANAC aponta explosão de contratações diretas em 2025 e alerta para riscos de desperdício e corrupção

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ANAC aponta explosão de contratações diretas em 2025 e alerta para riscos de desperdício e corrupção

O presidente da ANAC, Giuseppe Busia, soou um alerta em sua relação anual ao Parlamento: o decreto corretivo ao Código dos contratos públicos "deixou fissuras perigosas" que se traduziram, em 2025, numa verdadeira onda de contratações diretas para serviços e fornecimentos, incluindo consultorias.

Segundo o relatório, as aquisições sem concorrência representaram quase 95% do total para esses setores em 2025, com um acúmulo evidente perto da faixa-limite — entre €135.000 e €140.000. Nessa faixa de valor, os atos de compra passaram de 1.549 em 2021 para 13.879 em 2025, um indício de deslocamento estratégico dos procedimentos para níveis onde o controle competitivo fica reduzido.

Busia sublinha que, por trás dessa prática de contornar a competição, "frequentemente se escondem desperdícios, oportunismos, fracionamentos artificiais e, por vezes, até infiltrações criminosas". Em muitos contextos, administradores íntegros ficam mais expostos a pressões indevidas porque, abaixo dessas soglia, não dispõem mais do argumento da necessidade de um confronto competitivo.

O relatório detalha também a situação das obras públicas: 86% dos contratos de obras são atribuídos de forma direta a empresas de confiança ou via procedimentos restritos que não exigem a publicação de um edital. Em 2025, a ANAC registrou 64.211 procedimentos de atribuição para obras com valor superior a €40.000 — abaixo desse patamar, a adjudicação é, por padrão, fiduciária. Dessas 64.211 práticas, 55.185 (86%) corresponderam a encargos diretos (possíveis até €150.000, com 34.434 casos, ou 53,5%) ou a procedimentos restritos sem edital (as antigas negociações privadas, 20.841 casos, 32,5%). Apenas 9.009 procedimentos — 14% do total — seguiram formas de competição mais abertas (procedimentos abertos, restritos ou negociados precedidos por edital).

O retrato que emerge é o de uma arquitetura pública que vê ruir alguns de seus alicerces de transparência: a corrupção tornou-se "mais insidiosa e escorregadia", infiltrando-se em cada interstício da vida pública. Não se trata mais apenas das tangentes clássicas, mas de uma constelação de condutas sub-reptícias — das consultorias fictícias às patrocínios opacos, dos concursos viciados à apropriação indevida de fundos europeus, cuja fraude aumentou 35% no último ano, segundo a Procuradoria Europeia.

Busia chama atenção para um fenômeno ainda mais grave: por vezes, essas práticas chegam a roçar os níveis institucionais superiores, com a ambição não só de violar regras, mas de rescrevê-las, privatizando partes da soberania. Nesse cenário, a defesa do interesse público exige medidas concretas para recompor a ponte entre a administração pública e a cidadania.

Por isso, ressalta o presidente da ANAC, torna-se crucial proteger e valorizar o papel do denunciante (whistleblower). Quem, no interior de uma organização, reconhece uma irregularidade e a torna pública, presta um serviço essencial ao seu ente e ao coletivo: rompe a omertà, exerce cidadania vigilante e ajuda a reparar a estrutura corroída do Estado.

Em suma, a relação anual desenha um quadro em que a simples mudança normativa — a mão que remendou o Código — acabou por abrir fissuras no concreto da gestão pública. A tarefa agora é fechar essas fendas: endurecer mecanismos de controle, reerguer os alicerces da concorrência e fortalecer as salvaguardas para quem aponta irregularidades, em defesa do interesse público e da integridade institucional.