Alberto Barbera defende o filme russo Dau e ressalta que Ilya Khrzhanovsky é 'dissidente, não propagandista'

Barbera defende o filme russo Dau e afirma que Ilya Khrzhanovsky é dissidente, não propagandista, em resposta às críticas de Kiev.

Alberto Barbera defende o filme russo Dau e ressalta que Ilya Khrzhanovsky é 'dissidente, não propagandista'

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Alberto Barbera defende o filme russo Dau e ressalta que Ilya Khrzhanovsky é 'dissidente, não propagandista'

Em meio à controvérsia levantada por autoridades de Kiev, o diretor da Mostra del Cinema di Venezia, Alberto Barbera, saiu em defesa do filme russo Dau e de seu autor, Ilya Khrzhanovsky. Em entrevista, Barbera lembrou que Khrzhanovsky sempre declarou-se contrário à invasão da Ucrânia e salientou que o cineasta chegou a ser incluído nas listas de proscrição do Cremlino.

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“Ele acabou nas listas de proscrição do Kremlin como inimigo do Estado: um dissidente, não um propagandista”, afirmou Barbera, reforçando a distinção entre a trajetória artística de Khrzhanovsky e as leituras políticas simplificadas que circularam nos últimos dias. A declaração surge como um reframe necessário: quando o cinema entra no centro de controvérsias geopolíticas, o primeiro reflexo é reduzir o autor a rótulos, ao passo que o olhar curatorial busca recuperar a complexidade do percurso e do contexto.

A reação de Kiev ao filme — que alguns interpretaram como alinhado a narrativas russas — provocou um debate intenso sobre responsabilização cultural em tempos de guerra. Barbera, no entanto, insiste na necessidade de separar obra e artista do discurso oficial quando existem evidências de dissentimento do próprio criador. Trata-se de um posicionamento que mais parece um espelho do nosso tempo: o festival atua como um cenário de transformação que precisa avaliar não só o conteúdo, mas a biografia e as circunstâncias do autor.

Para além da polémica imediata, a situação revela a semiótica do viral em contexto internacional. Um filme pode ser lido como documento, performance ou provocação; quando é brandido como bandeira política por um lado ou outro, perde-se a nuance e ganha uma função de cartografia ideológica. A defesa de Barbera não é um gesto de neutralidade acrítica, mas uma tentativa de resgatar o diálogo crítico: entender Dau como peça cultural e, ao mesmo tempo, considerar as responsabilidades institucionais diante de um conflito que molda percepções globais.

O episódio também impõe ao público e à crítica uma pergunta ética e estética: até que ponto devemos permitir que o contexto geopolítico neutralize a avaliação artística? Barbera sugere que, no caso de Khrzhanovsky, há motivos para suspender julgamentos sumários, pois o diretor foi tratado como inimigo pelo próprio Estado russo — um dado que, nas palavras do curador, transforma a leitura do filme e do autor.

Enquanto as discussões prosseguem entre diplomacia cultural e opinião pública, a presença de Dau na Mostra reafirma o papel dos festivais como espaços de debate e reavaliação. E, como em um bom roteiro, o que está em jogo não é apenas o que vemos na tela, mas o que essa imagem reflete sobre nós: memórias, identidades e o roteiro oculto da sociedade em tempos de tensão.

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