Benigni em Vespa: São Francisco como 'líder do campo largo' e o eco cultural do século
Benigni em Vespa: São Francisco como 'líder do campo largo' e a inquietação cultural que seu legado provoca na Rai1.
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Benigni em Vespa: São Francisco como 'líder do campo largo' e o eco cultural do século
Por Chiara Lombardi — Em uma conversa que parece um roteiro curto entre sagrados e seculares, Roberto Benigni foi recebido por Bruno Vespa na rubrica 'Cinque minuti' da Rai1, para apresentar seu livro e o espetáculo dedicado a São Francisco. O ator toscano entrelaçou história, espiritualidade e atualidade com sua ironia singela, transformando a entrevista num espelho do nosso tempo.
Benigni dedicou ampla atenção à figura do santo de Assis, afirmando que ele é 'o maior moldador de almas da história da humanidade' e destacando como sua pregação alcançava não apenas as pessoas, mas também 'os animais, as plantas, as árvores, os pássaros, os cães, os lobos'. Essa imagem — do pregador que dialoga com toda a criação — funciona como uma metáfora potente: o legado de São Francisco é um roteiro oculto que continua a interpelar a nossa relação com o mundo natural e social.
Como num relance que desloca a cena para o tabuleiro político, Benigni não resistiu a uma alfinetada bem-humorada sobre o chamado 'campo largo'. Dirigindo-se a Vespa, disse que o franciscanismo foi 'uma multinacional' no sentido mais amplo, com milhões de seguidores, e que, paradoxalmente, acabou reduzido. 'Ele poderia ter sido um ótimo líder do campo largo', observou Benigni, sugerindo que São Francisco teria conciliado diferenças sem necessidade de primárias — um comentário que transforma o santo em símbolo de possível unidade social e político-cultural.
Mas a observação de Benigni traz outro tom: a inquietação. 'Francisco nos inquieta, sabe por quê? Porque se ele estiver certo, estamos perdidos', disse o ator, lembrando que a força subversiva do santo reside justamente em sua capacidade de perturbar certezas e confortos. Nesse sentido, o discurso de Benigni funciona como um reframe da realidade: a celebração religiosa também é um espelho crítico sobre as estruturas contemporâneas.
Benigni definiu ainda como um presente da emissora a realização da 'serata de São Francisco': 'É um dos presentes mais bonitos que a Rai poderia me dar, porque é estranho que não se fale disso neste momento, ninguém disse uma palavra — ele é infinito', afirmou. A fala antecede a exibição do especial 'Francesco – II cantico', programado para domingo, 4 de outubro, na Rai1, logo após o Tg1 das 20h, em coincidência com os 800 anos da morte do santo e a retomada da efeméride como festa nacional.
Como analista cultural, vejo nesta aparição algo além da promoção de um livro e espetáculo: é um gesto de reintrodução pública de uma figura cuja semântica atravessa séculos. Benigni não apenas celebra São Francisco; ele o reposiciona no centro do debate coletivo — um personagem que, como em uma película bem construída, nos obriga a rever narrativas, identidades e prioridades.
O episódio confirma ainda que o entretenimento, quando bem orientado, é um catalisador de memória e sentido. Em tempos de polarização, a ideia de um 'líder do campo largo' evocada com humor por Benigni abre uma janela para pensar em modelos de liderança que transcendem slogans e buscam consonância ética com o mundo natural. É um convite para assistir ao especial e, sobretudo, escutar o que o passado — e a voz de um artista — tem a nos provocar hoje.

