Mereghetti no Festival de Cannes: Javier Bardem brilha em confronto paterno; Kore-eda emociona com criança androide

Javier Bardem brilha em drama paterno e Kore-eda emociona com criança androide em Cannes; reflexões sobre perda, família e inteligência artificial.

Mereghetti no Festival de Cannes: Javier Bardem brilha em confronto paterno; Kore-eda emociona com criança androide

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Mereghetti no Festival de Cannes: Javier Bardem brilha em confronto paterno; Kore-eda emociona com criança androide

Por Chiara Lombardi, para Espresso Italia

Dois filmes apresentados em Cannes desenham um espelho sensível sobre a perda e os modos como a família tenta costurar o luto. Na pagela do crítico, ambos conquistam nota 8, e não é por acaso: de um lado, a interpretação arrebatadora de Javier Bardem em El ser querido; do outro, o retorno de Hirokazu Kore-eda ao seu território temático favorito, a família, com o comovente Sheep in the Box.

A perda de um filho é o núcleo narrativo que conecta as duas obras, tratada de formas distintas: literal e dolorosa no cinema de Kore-eda, metafórica e tensionada nas mãos de Rodrigo Sorogoyen. Essa convergência revela como o sofrimento privado reverbera como um roteiro oculto da sociedade, forçando personagens e espectadores a reescreverem o que significa pertencer.

Em Sheep in the Box (A ovelha na caixa, título que remete a um desenho infantil visível no filme), um casal vive com a ausência irreparável de um filho, possivelmente sequestrado, cujo desaparecimento deixa uma cicatriz de culpa e recriminação. O pai se culpa por um atraso, a mãe não encontra repouso. Quando a família descobre que, em um futuro não muito distante, existem empresas capazes de replicar fielmente os falecidos, a dinâmica muda: chega Kakeru, cópia perfeita do menino desaparecido aos sete anos, programado para manter apenas as memórias positivas.

Kore-eda, sempre fascinado pela multiplicidade da família — real, substituta, imperfeita — mergulha agora nas implicações éticas e afetivas da inteligência artificial. Ao mostrar o interior do androide durante uma reparação, o filme faz um reframe visual que aproxima mecanismos e anatomia humana, lembrando que a linha entre máquina e pessoa pode ser tanto técnica quanto moral. Kore-eda convida o espectador a tomar o lado do pequeno autômato, a sentir sua necessidade de independência, afeto e autodeterminação. Uma vida humana nao se desenha a gosto, como uma arquiteta que move cômodos e varandas no projeto de uma casa; ela requer risco e o preço que se esta disposto a pagar pela liberdade.

No outro extremo, El ser querido explora a tentativa de reparação por meio da arte e do reencontro. Javier Bardem interpreta Esteban, um diretor bem-sucedido que passa treze anos distante da filha Emilia, agora atriz de séries em Madrid. Esteban, que reconstruiu outra família em Nova York, retorna com um pedido profissional que esconde um desejo pessoal: curar, através do cinema, o laço quebrado. A proposta de convidar Emilia para protagonizar seu novo filme funciona como catalisador para tensões antigas e ressentimentos não resolvidos.

Bardem entrega uma prova de atuação extraordinária, capaz de equilibrar charme, culpa e uma fragilidade inesperada; é um desempenho que confirma sua presença como ator que pode traduzir em gestos o conflito íntimo de figuras paternas em crise. Victorie Luengo, como Emilia, contracena com honestidade, oferecendo a resistência necessária para que o confronto ganhe espessura dramática.

Esses dois filmes, embora distintos em estética e dispositivo narrativo, conversam sobre a mesma urgência: como lidar com a ausência e a tentativa humana de restaurar o que o destino, a violência ou o tempo dilaceraram. Enquanto Kore-eda nos pede empatia por um ser recriado, Sorogoyen nos obriga a encarar as consequências de escolhas que moldam gerações. No fim, ambos confirmam que o cinema permanece um espelho do nosso tempo, capaz de decifrar o roteiro oculto dos afetos e de nos lembrar que a memória — seja orgânica ou programada — define o que chamamos de lar.

Nota do crítico: El ser querido — 8. Sheep in the Box — 8.