Farhadi em Cannes: entre o filme e a denúncia, uma voz contra mortes e a repressão de Teerã

Asghar Farhadi, em Cannes com Histoires parallèles, condena mortes de civis e critica a repressão sangrenta do regime de Teerã.

Farhadi em Cannes: entre o filme e a denúncia, uma voz contra mortes e a repressão de Teerã

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Farhadi em Cannes: entre o filme e a denúncia, uma voz contra mortes e a repressão de Teerã

Por Chiara Lombardi — Em mais uma aparição marcada pela tensão entre arte e política, Asghar Farhadi, dois vezes vencedor do Oscar, marcou presença na Croisette com Histoires parallèles e transformou a atenção do festival em um palco para uma declaração contundente. O cineasta iraniano, que há três anos vive fora do seu país, voltou a falar sobre as cicatrizes recentes que carrega após ter estado em Teerã poucos dias antes.

Farhadi recordou dois eventos que lhe pesaram durante a pós-produção do filme: a morte de numerosos civis — entre eles crianças — em consequência dos ataques que atingiram infraestruturas e zonas habitadas; e, anteriormente, a repressão violenta contra manifestantes que saíram às ruas para protestar. «Esses dois eventos não serão esquecidos», afirmou, numa fala que soou como um espelho do nosso tempo: o espetáculo do festival refletindo o roteiro oculto da geopolítica.

Mais inesperado talvez do que a condenação dos ataques estrangeiros foi o gesto do diretor de apontar também para a violência interna: Farhadi não poupou críticas ao regime de Teerã pela repressão sanguinária contra protestos. Ao fazê-lo a partir de Cannes, ele transformou a passarela em um cenário de transformação — um ato de desafio que dificilmente passará despercebido.

Com a lucidez analítica de alguém que observa culturas como quem desmonta um filme quadro a quadro, Farhadi sublinhou que dor e empatia não são alinhamentos ideológicos. «Estar indignado diante da morte de civis não significa apoiar execuções; ter empatia pelas vítimas das manifestações não impede sentir empatia por quem morreu em bombardeios», declarou. Sua frase mais incisiva resume o princípio moral que guiou sua fala: «Qualquer homicídio é um crime. Não posso aceitar que um ser humano perca a vida — seja por guerra, execuções ou massacres de manifestantes.»

Ao incluir solidariedade às vítimas israelenses atingidas pela retaliação iraniana com mísseis e drones, o cineasta colocou-se fora de um mapa simplista de aliados e adversários. A sua posição aponta para a complexidade ética que atravessa o presente: a semiótica do viral e da notícia instantânea nos obriga a posicionamentos que afirmem, antes de tudo, a dignidade humana.

Farhadi já havia convocado artistas e cineastas, na véspera do festival, a usarem sua voz para denunciar a destruição de infraestruturas civis. Em Cannes, essa convocação ganhou forma pessoal, como se o diretor oferecesse um take final que mistura memória pessoal e responsabilidade pública. O gesto de censurar tanto ataques externos quanto a repressão interna é, objetivamente, um ato de coragem contra o regime iraniano — uma posição que reverbera para além da Croisette e que compõe, no imaginário coletivo, mais um quadro do nosso tempo.

O que vemos em Farhadi não é apenas um autor preocupado com o destino de seu filme em competição; é um cronista do presente que lembra ao mundo que, por trás das imagens e prêmios, permanece o custo humano de cada escolha política. Em linguagem cinematográfica, suas declarações funcionam como um reframe: oferecem nova luz a uma história que muitos tentam reduzir a rótulos fáceis.

Data: 15 de maio de 2026