Il dio dell'amore: a comédia coral de Francesco Lagi que reflete o vento instável do desejo

Crítica de Il dio dell'amore: Francesco Lagi assina comédia coral sobre o amor fluido em Roma, entre leveza e feridas afetivas.

Il dio dell'amore: a comédia coral de Francesco Lagi que reflete o vento instável do desejo

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Il dio dell'amore: a comédia coral de Francesco Lagi que reflete o vento instável do desejo

Por Chiara Lombardi — Em um tempo em que o entretenimento funciona como espelho do nosso tempo, Il dio dell'amore surge como uma fábula urbana sobre os caprichos do afeto. O filme de Francesco Lagi — que abriu a décima sétima edição do Bif&st de Bari — é uma rapsódia sentimental que percorre as ruas e as estações de Roma, onde um moderno Ovídio (na interpretação contida e emocionada de Francesco Colella) comenta, encanta-se e se choca diante das metamorfoses amorosas contemporâneas.

Se você acredita na imprevisibilidade do amor — naquela força que tanto perturba quanto salva — este filme fala diretamente com sua experiência. Inspirado por comédias corais à la Love Actually e pela leveza observacional de alguns filmes de Woody Allen, o longa de Lagi costura histórias de casais distintos: frágeis, turbulentos, quase perfeitos e, logo em seguida, em frangalhos. Não é a velha batalha entre sexos; é um movimento oscilante, existencial, em que o amor líquido e adaptável aparece como prática e redenção.

O diretor florentino de cinquenta anos, autor de obras tão díspares quanto Il pataffio e Quasi Natale, declara nas entrevistas sua fé na leveza salvadora — e isso se sente na textura do filme, que privilegia o cinema como canto e crônica das emoções. Lagi pede aos seus atores um cuidado quase maternal com o material: antes de cada tomada, recomenda cuidar do filme. Essa ética se traduz numa atenção às feridas afetivas que compõem a narrativa.

O enredo entrelaça episódios que transitam entre o irônico e o comovente. Há o professor de arte vivido por Vinicio Marchioni, cuja relação conjugal com a jornalista interpretada por Isabella Ragonese é tensionada pelo desejo e pela traição — ele mantém um envolvimento com a jovem aspirante artista e garçonete Chiara Ferrara. Em outro ponto do mosaico sentimental, mensagens por SMS e Whatsapp cumprem o papel de confessionário moderno: declarações de amor, trocas imediatas, mal-entendidos expostos na tela como peças de um roteiro oculto da sociedade.

Esteticamente, o filme celebra Roma: da Fontana di Trevi aos Foros, as locações funcionam como palimpsesto — a cidade antiga sob a pele contemporânea dos afetos. O tom é ritmado, por vezes leve demais em sua parte central, onde o entrelaçar de tramas chega a perder um pouco a coesão. Ainda assim, o público tende a se render à agilidade do entrelaçamento e à honestidade das pequenas cenas.

Além de Il dio dell'amore, o panorama das estreias desta semana traz uma diversidade que confirma o cinema como um cenário de transformação cultural: de adaptações televisivas como Peaky Blinders – The Immortal Man a propostas autorais e de gênero — títulos como Mio fratello è un vichingo, Cattiva strada, Don Chisciotte, Non è la fine del mondo, Ti uccideranno, Hamnet – Nel nome del figlio, Mercy – Sotto accusa e Gold compõem um cardápio que desafia o espectador a olhar além da superfície.

Il dio dell'amore não pretende oferecer respostas fáceis; prefere, como todo bom cantastorie, apresentar episódios que reverberam na memória afetiva do público. É um filme sobre como nos reinventamos nas relações, sobre o vento que nos desarruma os cabelos e, por vezes, nos arruma a alma. No roteiro oculto da modernidade, Lagi assina uma comédia romântica que é também um estudo sobre a resiliência do desejo — e sobre a tecnologia como novo altar dos afetos.