La Vénus électrique: o charme francês que abriu Cannes 79 (voto 7+)
Crítica: La Vénus électrique, de Pierre Salvadori, abre Cannes 79 com charme, fotografia pictórica e uma defesa da qualidade francesa. Nota: 7+.
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La Vénus électrique: o charme francês que abriu Cannes 79 (voto 7+)
Por Chiara Lombardi — Ao inaugurar a 79ª edição do Festival de Cannes, a escolha de Thierry Frémaux recaiu sobre La Vénus électrique, com direção do francês Pierre Salvadori. Recebido com alguns murmúrios, o filme revelou-se uma aposta certeira: não só pelas qualidades narrativas e estéticas, mas sobretudo pelo recado — um abraço à qualidade francesa que privilegia originalidade, interpretação afinada e valores de produção.
Salvadori já tem uma assinatura reconhecível: comédias de um tom melancólico onde personagens lidam com a solidão e com uma invenhosa arte de se virar. Essa leveza elegante remete a mestres que souberam sorrir sem perder a sutileza — nomes como Leisen, La Cava e até Lubitsch vêm à mente. Em La Vénus électrique, esses traços aparecem com clareza, ao cruzar o universo circense das feiras provinciais com o mundo mais refinado das galerias de arte.
No centro da fábula está Suzanne, vivida com precisão por Anaïs Demoustier. Nos anos 1920, em uma feira na periferia de Paris, ela ganha a vida oferecendo um beijaço elétrico: por 30 centimes, o público beija Suzanne e sente a descarga de um engenho que simula um choque. É uma performance de feira, frágil e mágica, que combina espetáculo popular e engenho curioso.
O encontro decisivo acontece quando Antoine, pintor em crise interpretado por Pio Marmaï, tomado pela culpa e pela crença de que sua musa Irène (a presença de Vimala Pons) está morta, confunde Suzanne com uma vidente durante uma noite embriagada. O erro gera um efeito catalisador: Antoine reencontra sua mão criativa; Suzanne, por seu turno, percebe que pode transformar a encenação em um ofício lucrativo.
A trama ganha um impulso comercial quando Armand, o negociante de arte vivido por Gilles Lellouche, percebe o efeito das sessões pseudo-espirituais sobre a produção de Antoine. Oferecendo uma porcentagem atraente por cada tela vendida, Armand consolida a ponte entre a feira e o mercado das galerias — um contraste que Salvadori explora com inteligência, mostrando como valores e fábulas se traduzem em capital simbólico.
A fotografia de Julien Poupard é uma conquista à parte: recorre a uma paleta que parece perseguir as nuances das vanguardas do início do século XX, imprimindo ao filme um aspecto pictórico que dialoga com o tema central — a pintura enquanto memória e desejo. O filme é contado com abundância de meios e figurantes, equilibrando cenário popular e altos salões do comércio artístico.
Mais do que uma comédia de época, La Vénus électrique funciona como um espelho do nosso tempo: questiona o que valorizamos, como narrativas são fabricadas e como o mercado transforma lendas em mercadoria. A escolha de Salvadori para abrir Cannes soa como um pequeno manifesto — lembrar que, por trás do glamour dos grandes nomes, existe uma tradição cinematográfica francesa que persiste em inventar sutilezas.
O veredito crítico confirma: o filme entretém sem se esquecer de pensar, e a combinação de elenco certeiro, direção de arte e fotografia resulta em um longa que merece atenção. Nota: 7+.