Pif volta como pasteleiro apaixonado em ‘Che Dio perdona a tutti’: fé, riso e hipocrisia religiosa na tela

Pif retorna em 'Che Dio perdona a tutti', comédia dramática sobre fé, amor e hipocrisia religiosa adaptada do livro de 2018. Reflexão e riso na Itália contemporânea.

Pif volta como pasteleiro apaixonado em ‘Che Dio perdona a tutti’: fé, riso e hipocrisia religiosa na tela

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Pif volta como pasteleiro apaixonado em ‘Che Dio perdona a tutti’: fé, riso e hipocrisia religiosa na tela

Por Chiara Lombardi — O cinema, muitas vezes, atua como um espelho do nosso tempo; raramente esse reflexo é tão doce e ácido ao mesmo tempo como em Pif em Che Dio perdona a tutti. Adaptado do romance homônimo de Pif publicado pela Feltrinelli em 2018, o filme retorna ao debate sobre , pecado e redenção com a leveza irônica que lembra autores como Moretti e Troisi — mas com uma assinatura própria, veludada e sensível.

Na pele de Arturo, um vendedor de imóveis palermitano com ar de Peter Pan descrente, Pif constrói um anti‑herói ternamente atrapalhado: óculos tortos, uma barriguinha carinhosa e uma gula declarada por doces sicilianos, cuja obsessão virou até um blog. Arturo é mestre em descrever apartamentos omitindo defeitos e trabalha na agência Trinacria Real Estate sob o comando do amigo Tommaso, personagem vanidoso que participa todo ano da representação da via‑crucis.

O núcleo narrativo se move quando Arturo cruza o caminho da mulher que mudará sua bússola: uma devotíssima pasticciera por quem se apaixona e por quem decide converter‑se. O romance vira catalisador para uma comédia dramática que coloca em cheque as contradições de uma ética religiosa vivida no cotidiano, transformando o protagonista, aos olhos da comunidade, numa espécie de masaniello moderno que esmiúça hipocrisias para devolver ao público um senso crítico e uma ternura rara.

Hábil em entrelaçar o íntimo e o social, Pif não se esquiva de colocar na cena uma figura papal — inspirada em Francisco — que pode ser tanto imagem quanto alucinação, uma entidade capaz de diluir códigos e convenções para escavar o que resta de humanidade nas regras do Evangelho. Em um gesto meta‑cinematográfico, os créditos reservam o registro do encontro real entre Pif e o Pontífice, quando o cineasta falou sobre a intenção do livro e do filme.

O pano de fundo da infância de Arturo, marcado pela partida Itália‑Brasil na Copa do Mundo de 1982, funciona como uma pequena mitologia pessoal: a experiência do menino que percebeu uma suposta escolha divina naquele lance decisivo e, por isso, abandonou a fé. Esse detalhe transforma a busca do protagonista em algo menos dogmático e mais existencial — uma investigação sobre quem se beneficia das certezas e quem fica à margem delas.

Além de Che Dio perdona a tutti, a programação desta temporada traz uma diversidade de títulos que reforçam como o cinema contemporâneo continua a espelhar ansiedades e escapismos: o retorno nostálgico de Super Mario Galaxy – Il Film, o lado cômico de Bradley Cooper, os projetos de atores como Robert Pattinson e Zendaya, além de produções como È l’ultima battuta?, The Drama – Un segreto è per sempre, Il Vangelo di Giuda, Lo straniero, Lo sguardo di Emma, Il maestro, Father Mother Sister Brother e Troppo Cattivi 2.

O filme de Pif atua, portanto, como um reframe da realidade: uma fábula urbana que mistura riso e reflexão, com olhares lançados sobre as instituições e o íntimo das paixões. Não é espetáculo de escândalo; é, antes, uma pequena parábola sobre contradições humanas — um roteiro oculto que nos convida a pensar por que determinados dogmas persistem e quem lucra com eles. No final, talvez o que o cinema nos devolva seja menos um juízo e mais o convite para reconhecer nossas próprias imperfeições: rir delas e, eventualmente, perdoá‑las.

Para o público, resta a vontade de ver como essa comédia dramática vai reverberar em salas e telas digitais — e perceber que, às vezes, a conversão mais interessante é a conversão do olhar.