Bellingham e Kane: a Inglaterra revive o sonho da final mundial após 60 anos

Com Tuchel, Bellingham e Kane, a Inglaterra busca reescrever sua história e voltar a uma final de Copa 60 anos após 1966.

Bellingham e Kane: a Inglaterra revive o sonho da final mundial após 60 anos

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Bellingham e Kane: a Inglaterra revive o sonho da final mundial após 60 anos

Por Otávio Marchesini, Espresso Italia

Há uma densidade simbólica difícil de separar do futebol quando se fala da seleção inglesa: é uma mistura de memória coletiva, reivindicação de identidade e desejo histórico. Hoje, sob o comando do técnico alemão Thomas Tuchel, a Inglaterra volta a alimentar o sonho de alcançar uma final de Copa do Mundo que lhe foge desde 1966. No papel de protagonistas dessa narrativa estão Jude Bellingham e Harry Kane, autores até aqui de seis gols cada um nesta campanha — números que testemunham tanto talento individual quanto coordenação coletiva.

O peso do passado não é apenas estatístico. A final de 1966, vencida em Wembley por 4-2 diante da então Alemanha Ocidental, ficou marcada para sempre pelo episódio do “gol não gol” de Geoff Hurst. Quase seis décadas depois, seria impossível imaginar que um lance semelhante sobreviveria à tecnologia: hoje a goal-line technology e o VAR funcionam como guardiões de uma clareza que a história do jogo nem sempre teve.

Do outro lado desse imaginário estão as cicatrizes deixadas por episódios como o de 1986, no Estádio Azteca, quando Diego Maradona conduziu a Argentina entre a infâmia e a genialidade — a mão do “Hand of God” e, logo depois, aquilo que entrou para os anais como o “gol do século”. Essas imagens não são apenas memórias; são fantasmas que assombram seleções inteiras, alimentando buscas e ansiedades que atravessam gerações.

Quarenta anos depois daquele jogo histórico na Cidade do México, foi no mesmo Azteca que a equipe inglesa encontrou o impulso necessário para enfrentar seus próprios espectros. Mais do que disciplina tática, a campanha de Tuchel tem mostrado uma combinação de coragem coletiva e individualidade articulada: Bellingham, com sua missão de conectar e acelerar o jogo no meio-campo, e Kane, referência goleadora e organizadora, representam duas dimensões complementares do time.

Mas é preciso cautela ao decifrar esse avanço: chegar à final não é apenas somar gols ou contar identidade. É equilibrar resistência física, estratégia e uma leitura histórica dos oponentes. Encarar a Argentina — ou qualquer seleção com passado rico e personalidade forte — exige que a Inglaterra seja ao mesmo tempo pragmática e autêntica, sem sucumbir ao peso das narrativas que já foram escritas contra ela.

Como analista que observa o esporte como fenômeno social, vejo neste momento inglês algo além da simples busca por um troféu. É um esforço para reconciliar memória e presente, para demonstrar que clubes, federações e gerações podem aprender com os erros e reinventar-se. Se a conquista vier, não será apenas um triunfo esportivo: será um ajuste na história simbólica do país com seu próprio futebol.

Independentemente do desfecho, esta Inglaterra — guiada por Tuchel e impulsionada por Bellingham e Kane — já reabriu um capítulo importante. O que está em jogo não é somente uma final; é a forma como uma nação se conta através do jogo que ela afirma ter inventado.