Infantino viajou 50.122 km e viu 24 jogos: o rastro do jet privado e as emissões no Mundial
Infantino acompanhou 24 jogos do Mundial; jet privado percorreu 50.122 km gerando 516 toneladas de CO2 na fase de grupos, diz BBC.
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Infantino viajou 50.122 km e viu 24 jogos: o rastro do jet privado e as emissões no Mundial
Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A presença constante do presidente da FIFA, Gianni Infantino, nas arquibancadas da Copa do Mundo chamou atenção não apenas pela intensidade de sua agenda, mas pelo rastro físico e ambiental deixado durante a fase de grupos. Segundo levantamento da BBC, o dirigente assistiu a 24 partidas em pouco mais de duas semanas, deslocando-se entre Estados Unidos, Canadá e México a bordo de um jet privado associado à instituição.
Utilizando dados de rastreamento aéreo cruzados com fotografias públicas do presidente nos estádios, a análise da emissora britânica reconstruiu 27 trajetos do avião durante a fase inicial do torneio. O aparelho teria percorrido pelo menos 50.122 quilômetros até 27 de junho, passando mais de 66 horas em voo. O trecho mais longo apontado foi entre Vancouver e Miami, com cerca de 4.500 km, e em dias mais intensos Infantino chegou a realizar até três deslocamentos para assistir a jogos distintos.
Do ponto de vista climático, o relatório chama atenção: o jato identificado pela BBC como um Gulfstream G650ER — modelo que já foi utilizado em viagens ligadas à FIFA — teria gerado aproximadamente 516 toneladas de CO2 no período da fase de grupos. Para dar dimensão, essa quantidade equivale, segundo a estimativa citada, às emissões anuais de cerca de 78 pessoas.
A organização, porém, não confirmou publicamente o modelo do avião nem o número de passageiros em cada trecho. Em nota, um porta-voz da FIFA esclareceu que o presidente "viaja regularmente junto com funcionários competentes para assuntos relacionados às competições e às atividades da instituição" e que os deslocamentos são organizados, conforme a conveniência, ora por voos comerciais, ora por voos charter privados.
Como analista que observa o esporte além da simples cronologia de eventos, destaco duas dimensões deste episódio. Primeiro, a logística de um Mundial expandido — com 16 cidades-sede espalhadas por três países — impõe desafios operacionais consideráveis a todos os atores envolvidos, da organização aos próprios espectadores. Segundo, a circulação de figuras institucionais em aeronaves de grande alcance reclama uma reflexão sobre responsabilidade simbólica: quando a liderança de um esporte global aparece em modernos jatos privados, a imagem contrasta com discursos de sustentabilidade e com as expectativas públicas sobre compromissos climáticos.
O episódio não altera os fatos do torneio, mas ilumina tensões que atravessam o futebol contemporâneo: entre espetáculo, economia e consequências ambientais. Resta à FIFA e aos demais protagonistas traduzir essa evidência em critérios transparentes de deslocamento e compensação, para que a organização do futebol assuma coerência entre prática e retórica — especialmente em uma Copa do Mundo cujo alcance simbólico e real é planetário.