Corte Suprema russa afasta Yabloko das eleições da Duma: corte do único partido pacifista

Corte Suprema russa exclui Yabloko das eleições da Duma; partido pacifista anuncia apelação enquanto críticas internacionais aumentam.

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Corte Suprema russa afasta Yabloko das eleições da Duma: corte do único partido pacifista

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, nas bordas do tabuleiro político, as regras da competição eleitoral, a Corte Suprema da Rússia decidiu excluir o histórico partido liberal Yabloko das listas para a eleição da Duma de Estado, marcada entre 18 e 20 de setembro. A sentença segue recurso do partido nacionalista pró-Kremlin Rodina, que impetrou a ação contra a formação de oposição.

A fundamentação da Corte incorpora um mosaico de acusações: supostas violações de direitos autorais — ligadas ao uso de citações teatrais, imagens do ex-presidente Dmitri Medvedev e fotogramas do filme Guerra e Paz (1967) — além de alegações de financiamento estrangeiro, promoção de propaganda LGBT e incitação ao extremismo. Contudo, o que mais pesou politicamente foi a leitura institucional da plataforma pacifista de Yabloko, interpretada pelas autoridades como uma ameaça à “integridade territorial” do país.

Fundado nos anos 1990 por Grigory Yavlinski e hoje liderado por Nikolai Rybakov, o partido vinha sendo apontado como a única força registrada e consistentemente contrária à guerra na Ucrânia. Em tribunal, Rybakov reafirmou a disposição de levar adiante a via jurídica: o partido anunciou que vai apelar da decisão dentro do prazo legal de cinco dias.

Na prática, a exclusão de Yabloko do pleito configura um movimento decisivo no tabuleiro: ao retirar do tabuleiro a peça que expressava uma posição pacifista institucional, o sistema político russo reduz um canal de contestação formal e envia um sinal claro sobre os limites permitidos à dissensão. Observadores domésticos e internacionais já comentam a medida como mais um sinal da crescente pressão sobre apoios eleitorais independentes e da fragilidade dos alicerces da pluralidade política.

O episódio também mobilizou vozes da oposição em exílio — entre elas Yulia Navalnaya, viúva de Alexei Navalny, que havia convocado eleitores a respaldar Yabloko pela sua posição contra o conflito. Após a sentença, Navalnaya afirmou que “o Kremlin se assustou” ante o surgimento de um movimento de união popular que o poder não desejava enfrentar.

Do lado de fora do tribunal, cerca de cem apoiadores — em sua maioria jovens — protestaram em favor do partido, entoando palavras de ordem como “Vergonha!”. A polícia ordenou a dispersão e prendeu duas manifestantes por distribuírem folhetos do partido. A decisão já provocou reações críticas em âmbitos internacionais, que veem no episódio um endurecimento das barreiras à oposição.

Enquanto a disputa jurídica prossegue, o caso Yabloko serve como termômetro da tectônica de poder na Rússia: não se trata apenas de uma questão de elegibilidade, mas de quem pode sustentar narrativas alternativas sobre segurança, diplomacia e futuro nacional. A estratégia do partido será agora tentar reingressar no pleito por vias legais — uma partida de contestações que tem implicações diretas para a visibilidade política da dissidência em tempos de guerra.