Foto da família de migrantes separada pela ICE é eleita Foto do Ano no World Press Photo 2026
Foto da família separada pela ICE, de Carol Guzy, é eleita Foto do Ano no World Press Photo 2026; repercussões políticas e humanas explicadas.
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Foto da família de migrantes separada pela ICE é eleita Foto do Ano no World Press Photo 2026
Por Marco Severini — Em um gesto simbólico que revela as linhas de fratura da política migratória contemporânea, a imagem de uma família em pranto, separada pela ICE (Immigration and Customs Enforcement), foi escolhida como Foto do Ano no World Press Photo 2026. Registrada pela fotógrafa norte-americana Carol Guzy, para o Miami Herald em parceria com ZUMA e iWitness Institute, a fotografia capta o momento em que Luis, um migrante equatoriano, é detido e afastado da esposa Cocha e dos filhos após uma audiência no tribunal de imigração de Nova York, em 26 de agosto de 2025.
Tomada dentro de um edifício federal norte-americano, graças a um acesso excepcional concedido a fotógrafos, a imagem expõe o desespero das crianças que se prendem ao suéter do pai, entre lágrimas e pânico. A composição documenta, sem artifícios, a consequência humana de uma decisão administrativa: a separação de uma unidade familiar no contexto de procedimentos migratórios. Em suas palavras de aceitação, Carol Guzy sublinhou o papel essencial da imprensa em responsabilizar agentes e serviços, declarando que o prêmio, em última instância, pertence às pessoas retratadas.
O World Press Photo, que há 71 anos reconhece o melhor do fotjoralismo e da fotografia documental no mundo, avaliou 57.376 imagens submetidas por 3.747 fotojornalistas de 141 países. A escolha da foto vencedora, num certo sentido, é um movimento decisivo no tabuleiro do relato público: a imagem torna visível o que as decisões administrativas tentam tornar invisível.
A seleção também apontou duas finalistas. A primeira, "Gaza Aid Crisis", de Saber Nuraldin (EPA Images), mostra multidões palestinas escalando um caminhão humanitário que adentra a Faixa de Gaza em busca de farinha durante uma pausa descrita pelo exército israelense como uma "suspensão tática" nas entregas. Para Nuraldin, a fotografia nasce da presença íntima no evento — da partilha da fome, do medo e do peso emocional da experiência.
A segunda finalista, "The Trials of the Achi Women", de Victor J. Blue (New York Times Magazine), apresenta um retrato em preto e branco das mulheres Achi saindo de um tribunal na Guatemala, após vencerem uma batalha judicial contra seus agressores, crime cometido 42 anos antes, no decurso da guerra civil. A corte ressaltou, segundo o júri, a dignidade e autoridade dessas mulheres, contrapondo narrativas históricas que as trataram como vítimas passivas.
Entre outros laureados, o fotógrafo Luis Tato, da Agence France-Presse, foi premiado na categoria "Storie" para a região africana por um conjunto que documenta as manifestações da "Geração Z" em Madagascar. Estas séries reforçam uma geografia de inquietações — da migração forçada às lutas por dignidade — cujos alicerces frágeis moldam o desenho das fronteiras invisíveis da nossa era.
Como analista, lembro que imagens com essa densidade factual e simbólica não apenas concorrem a prêmios: elas reconfiguram a percepção pública e incidem sobre decisões políticas. No grande tabuleiro das relações internacionais, fotografias como a de Carol Guzy funcionam como mapas que revelam caminhos ocultos e riscos latentes para a estabilidade social e para a legitimidade das instituições.