Funerais de Ali Khamenei mobilizam milhões em Teerã e ampliam fricções do Irã com EUA e Israel

Milhões em Teerã no funeral de Ali Khamenei; Irã reafirma ruptura com EUA e não reconhecimento de Israel, enquanto implementa memorando difícil, mas possível.

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Funerais de Ali Khamenei mobilizam milhões em Teerã e ampliam fricções do Irã com EUA e Israel

Por Marco Severini — Em um movimento que altera o mapa político do Médio Oriente como uma jogada decisiva no tabuleiro, milhões de iranianos tomaram as ruas de Teerã para o cortejo fúnebre da suprema liderança. A passagem da urna do falecido líder supremo Ali Khamenei transformou-se em um ato público de coesão interna e de projeção externa, enquanto autoridades iranianas reiteram rupturas estratégicas com os Estados Unidos e o não reconhecimento de Israel.

O presidente do Parlamento e principal negociador iraniano, Mohammar Bagher Ghalibaf, recebeu em Teerã Mohammad Darwish, chefe do Conselho Diretor de Hamas, deslocado ao Irã para participar das cerimônias. Em declarações reproduzidas pela imprensa local e pela Al-Jazeera, Ghalibaf sublinhou que, apesar da assinatura recente de um memorando de entendimento com os Estados Unidos, o país permanece em profundo desacordo com Washington. "Não temos paz com os Estados Unidos e não reconheceremos Israel", disse o parlamentar, em termos que reforçam a tectônica de poder que molda a região.

Ghalibaf descreveu a implementação do memorando como "difícil, mas possível" e afirmou que Teerã exigiu que o documento incluísse garantias sobre a integridade territorial dos países regionais e a cessação das ações militares contra aliados iranianos no que o Irã chama de "eixo da resistência". "Hoje, este memorando está em fase de implementação e a sua aplicação é difícil, mas possível", acrescentou, apontando para um equilíbrio cauteloso entre pressão militar e política.

Da perspectiva estratégica, trata-se de um movimento calculado: manter a retórica de apoio à resistência — "se necessário com mísseis e, se exigido, com pressão política através de negociações" — enquanto se preserva margem de manobra diplomática. É uma arquitetura de poder que pretende simultaneamente segurar aliados e condicionar adversários, como se cada declaração fosse uma peça deslocada para controlar espaço no tabuleiro regional.

No plano cerimonial, o general Hassan Hassanzadeh, responsável pelo cortejo, pediu calma aos participantes das frentes orientais de Teerã que não conseguiram acompanhar o percurso: as urnas seriam transportadas por helicóptero até essas áreas ao longo do dia. O cortejo seguiu o itinerário planejado — partindo da via Damavand, cruzando a praça Enghelab no centro, até chegar à praça Azadi e à autoestrada Lashkari, na zona oeste — e foi acompanhado por gritos de "Morte aos Estados Unidos" e "Morte a Israel" conforme relatado pela emissora estatal IRIB.

A agência Tasnim qualificou a mobilização como "o maior ajuntamento público da história recente do país", estimando em "milhões" o número de participantes. Após dois dias de exposição na Grande Mesquita — espaço sagrado e político central — a urna de Ali Khamenei seguiu em procissão que, segundo previsões locais, poderia durar entre 10 a 12 horas, refletindo não apenas luto, mas também afirmação simbólica de unidade.

Em termos de Realpolitik, o evento conjuga dois objetivos: consolidar a ordem interna e enviar sinais claros aos pólos de influência externos. A retórica de ruptura com Washington e Jerusalém, combinada com a abertura limitada a entendimentos técnicos, mostra um Irã que se move com cautela de grande estrategista: avançando peças quando a posição o permite, recuando quando a execução exige prudência. O funeral de Khamenei, portanto, é simultaneamente luto, mostra de força e reposicionamento nas linhas invisíveis que redesenham a influência no Médio Oriente.