Exército de Israel abre investigação penal sobre a morte de Hind Rajab, símbolo das vítimas em Gaza
Exército israelense abre investigação penal sobre a morte de Hind Rajab, a menina de 5 anos cujo apelo por socorro virou símbolo das vítimas em Gaza.
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Exército de Israel abre investigação penal sobre a morte de Hind Rajab, símbolo das vítimas em Gaza
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que tardiamente, as linhas de responsabilidade no tabuleiro da guerra, o exército israeliano anunciou a abertura de uma investigação penal sobre a morte de Hind Rajab, a menina de cinco anos cuja voz gravada nos últimos momentos de vida se tornou um dos símbolos mais contundentes das vítimas palestinas na Faixa de Gaza.
Hind morreu em 29 de janeiro de 2024, após ficar horas presa dentro de um automóvel junto aos corpos de membros da família, enquanto pedia socorro, por telefone, à Mezzaluna Rossa. As circunstâncias daquele episódio — e, em especial, o ataque contra os socorristas que atenderam ao chamado — provocaram indignação internacional e foram objeto de inquéritos independentes e apelos por esclarecimentos.
Mais de dois anos e meio depois, a procuradoria militar decidiu aprofundar penalmente o caso que envolve a morte de Hind, a de seus parentes e de dois paramédicos palestinos que teriam ido socorrê-los — num total de nove pessoas relacionadas ao mesmo episódio. A decisão concentra-se sobretudo nas circunstâncias do disparo contra o veículo e no ataque aos socorristas.
Até então, as forças israelenses haviam afirmado inicialmente que não estavam presentes na área no momento do ocorrido. Hoje, contudo, houve o reconhecimento de que soldados abriram fogo contra o automóvel. Trata-se de uma alteração significativa na narrativa oficial, que altera o enquadramento jurídico e político do episódio.
O anúncio vem após um balanço interno no qual as autoridades militares afirmam ter examinado 150 episódios relativos à conduta do Idf na Faixa de Gaza. Segundo a procuradoria, foram tomadas decisões legais sobre cinco incidentes operacionais de ampla cobertura midiática. Duas dessas ocorrências serão objeto de investigações penais: a de Hind e outra, de escala maior, ocorrida em 23 de março de 2025, em Rafah, quando 15 palestinos ligados a serviços de ambulância, proteção civil e às Nações Unidas foram mortos enquanto participavam de operações de resgate.
Sobre o caso de Rafah, o exército já havia reconhecido "falhas profissionais" e aplicado medidas disciplinares contra oficiais, mas agora a procuradoria avança para possível responsabilização penal. Em contrapartida, três episódios que provocaram a morte de trabalhadores humanitários da World Central Kitchen e de Médicos Sem Fronteiras não serão submetidos a inquéritos penais, segundo a mesma nota.
O reconhecimento tardio de fogo efetuado por soldados e a abertura de uma investigação penal sobre a morte de Hind Rajab representam um ponto de inflexão delicado na tectônica de poder regional. Não se trata apenas de uma apuração judicial, mas de um movimento estratégico no tabuleiro diplomático: admitir responsabilidade, mesmo que limitada, altera as dinâmicas de legitimidade, pressiona por transparência e coloca em jogo os alicerces frágeis da relação entre operações militares e proteção de civis em zonas de conflito.
Enquanto a investigação avança, permanece a imagem dilacerante da menina que, por horas, buscou socorro por telefone. Essa gravação — e a narrativa subsequente — transformaram um episódio isolado em símbolo, e agora em caso penal, de como decisões em campo reverberam como peças movidas num xadrez de alcance internacional.
Em termos práticos, a nova etapa pode resultar em processos contra militares e em aprofundamento de exames sobre regras de engajamento. Em termos simbólicos, desafia tanto a comunidade internacional quanto atores locais a confrontar as zonas cinzentas entre ação militar, responsabilidade e proteção humanitária.

