O mundo rearmado: US$ 2,887 trilhões em gastos militares em 2025 e a nova tectônica do poder

Relatório SIPRI: gastos militares globais atingem US$ 2,887 tri em 2025; Europa e rearmamento marcam a nova tectônica do poder.

O mundo rearmado: US$ 2,887 trilhões em gastos militares em 2025 e a nova tectônica do poder

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O mundo rearmado: US$ 2,887 trilhões em gastos militares em 2025 e a nova tectônica do poder

Por Marco Severini — A mais recente fotografia estratégica do SIPRI revela um planeta que volta a priorizar arsenais sobre bem-estar social: em 2025, os gastos militares globais somaram US$ 2.887 bilhões, marcando o 11º ano consecutivo de crescimento. Esse montante eleva o peso das armas para 2,5% do PIB global, o nível mais elevado em 16 anos — um movimento que redesenha, como num tabuleiro de xadrez, as prioridades dos Estados e os limites dos seus recursos.

O aumento é mais nítido na Europa, onde a despesa militar atingiu US$ 864 bilhões, um incremento de 14% em relação ao ano anterior. A guerra na Ucrânia e os ambiciosos programas de rearme do Velho Continente explicam grande parte dessa expansão: os 29 membros europeus da NATO gastaram, em conjunto, US$ 559 bilhões.

Na linha de frente do realinhamento está a Alemanha, com investimentos de US$ 114 bilhões, ultrapassando pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria o patamar de 2% do PIB. A Espanha aumentou em 50% seu orçamento, alcançando US$ 40,2 bilhões. A Itália confirma a posição como 12.º maior gastadora mundial, com mais de US$ 48 bilhões e crescimento de 20%: cifra que, embora esteja em torno ou abaixo da meta de 2% do PIB, revela um acentuado compromisso financeiro do Ministério da Defesa.

Nas zonas de conflito, as cifras são extremas e narram a erosão dos alicerces da normalidade: a Rússia elevou seu gasto a US$ 190 bilhões, equivalente a 7,5% do seu PIB. A Ucrânia, para sustentar a resistência, destinou 84,1% do seu orçamento à defesa — um montante que representa cerca de 40% de sua produção nacional.

No Oriente Médio, apesar da redução relativa da intensidade dos combates na Faixa de Gaza, os dispêndios de Israel permanecem 97% acima dos níveis de 2022. A Turquia, por sua vez, aumentou o orçamento em 7,2%, chegando a US$ 30 bilhões.

O caso dos Estados Unidos exige uma leitura de tabuleiro mais fina. Mantêm a maior despesa do mundo — US$ 954 bilhões — ainda que registrem uma diminuição aparente de 7,5% em 2025. Esse recuo é, em grande medida, reflexo de uma transição política: a mudança da presidência Biden para Trump reduziu temporariamente compromissos com a Ucrânia e precedeu iniciativas militares prospectivas como o conflito contra o Irã. Donald Trump propôs aumento de 45% no próximo orçamento, e o Congresso aprovou verbas superiores a US$ 1 trilhão para 2026, com projeções que podem alcançar US$ 1,5 trilhão em 2027. Como observa Nan Tian, diretor do programa do SIPRI, a aparente queda em 2025 provavelmente será de curta duração.

Essa escalada é alimentada pelo que os analistas chamam de paradoxo da segurança: em um ambiente de incerteza geopolítica, os Estados acumulam capacidades para se proteger, mas essa acumulação tende a alimentar mais insegurança regional e competição. O resultado é um redesenho invisível de fronteiras de influência e um deslocamento de recursos que fragiliza investimentos em bem-estar, proteção ambiental e combate à pobreza — os verdadeiros alicerces de uma paz duradoura.

Do ponto de vista estratégico, assistimos a um movimento multifacetado: países reconstruindo capacidades, alianças reavaliando compromissos, e orçamentos nacionais sendo reposicionados no centro do jogo. É um ciclo que exige leitura fria e planejamento a longo prazo — o tipo de visão que a diplomacia informada e o pensamento geopolítico sustentado devem oferecer aos decisores, antes que as peças no tabuleiro sejam movidas sob pressão e sem estratégia coerente.